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|Crítica| 'Pillion' (2026) - Dir. Harry Lighton

|Crítica| 'Pillion' (2026) - Dir. Harry Lighton

Crítica por Raissa Ferreira.

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'Pillion' / Diamond Films

 

Título Original: Pillion (UK)
Ano: 2026
Diretor: Harry Lighton
Elenco: Harry Melling, Alexander Skarsgard, Lesley Sharp, Douglas Hodge e Jake Shears.
Duração: 107 min.
Nota: 4,0/5,0
 

Harry Lighton vai do fetiche à aceitação, e da comédia ao romance, dosando a narrativa a partir das personalidades opostas de seus personagens

Existe amor no BDSM? Essa é a pergunta que parece ressoar comicamente nas entrelinhas de Pillion. A tradução para o português da palavra que dá o título, explica perfeitamente o estado do protagonista, garupa. Colin (Harry Melling) anda no banco de trás da vida, observando timidamente o mundo, até conhecer o fechado e imponentemente bonito Ray (Alexander Skarsgård). Quando o zíper de couro se abre, o garoto britânico entra em um universo empolgante de possibilidades, mas embora embarque com satisfação nessa jornada de submissão, é o amor que sempre busca nas trocas com o motoqueiro. 

Colin está permanentemente na garupa, porém quando o banco está atrás de seu sexy dominador, tudo ganha novas cores. Harry Lighton, diretor e roteirista, apresenta à pessoa espectadora uma obra sensível, romântica e engraçada pelos olhos desse protagonista em rota de descoberta. Dessa forma, quem assiste vê tudo nessa perspectiva, mais acinzentada antes do encontro com Ray, excitante a cada novo passo no relacionamento de submissão, apaixonante ao observar o dominador misterioso e por aí vai. Após o primeiro convite de Ray para que Colin faça parte de sua rotina, as cenas se igualam à sensação dos grandes olhos do protagonista olhando para cima em êxtase. É como ver uma criança aprendendo a viver, tão fascinante quanto, por vezes, divertidamente desajeitado. 

Harry Melling, massivamente conhecido por seu papel em Harry Potter, dá um show ao interpretar esse garoto, enquanto Skarsgård vem com sua aparência e imponência já conhecidas pelo público, dando outros significados a suas qualidades. Lighton acerta muito ao equilibrar esses dois personagens para contar uma história que aproveita o fetiche de maneira astuta. É comum que filmes abordem a sexualidade nesse viés de forma mais obscura ou dramática, mas Pillion opta por uma liberdade divertida e ao mesmo tempo romântica. Pois há, simultaneamente, idealização e humor.

Tudo se dá por como os dois homens enxergam suas vidas. Ray é um homem misterioso e muito fechado, e já que a perspectiva da narrativa pertence a Colin, a pessoa espectadora jamais é permitida no universo particular do dominador. Já o protagonista é sonhador, um tímido buscando seu lugar no mundo e, inevitavelmente, um romântico. É o amor dos pais em casa que espelha essa expectativa. Nas entrelinhas dessa narrativa, há outra sobre aceitação, que se inicia quando o longa deixa claro que a sexualidade de Colin é extremamente bem aceita pela família, e entra em crise quando ele passa a demandar do relacionamento com Ray mais do que fora oferecido. 

O motoqueiro que convive com seus iguais, outros homens com relacionamentos de dominação e submissão, pode até se soltar um pouco em seu círculo, mas as tentativas de Colin de extrair mais afeto se acumulam problematicamente no semblante de Ray. Ainda assim, Pillion não explora o fetiche pela dor, trauma ou de maneira degradante, mas o observa em um plano mais livre, de maneira que seja compreendido como um estilo de vida e não uma bandeira vermelha que certas pessoas podem carregar. Colin aceita tudo de peito aberto, se encontra nesse papel, no entanto, tenta aos poucos construir seu próprio BDSM, em que o amor e o carinho são tão protagonistas dos relacionamentos quanto os jogos de poder. 

De um lado, o rígido que não quer se permitir além da casca grossa, do outro, os olhos ingenuamente livres que contam a história. Pillion é um filme de amor e aceitação, mas que dosa tudo com um ótimo senso de humor, lidando com a sexualidade e os desejos de maneira leve. Em momentos, é como assistir a um longa adolescente de primeira paixão, mas não demora muito até que um macacão de couro revele um pênis ou uma bunda esteja exposta. Assim fica fácil entender como uma das cenas mais emocionantes é provavelmente uma de sexo, ainda que seja no meio de um grupo de outros homens tendo relações em mesas dentro da floresta. O grande ponto de Lighton, ao final, parece ser exatamente o que esteve sempre implícito, um motoqueiro misterioso não pode se tornar um namorado comum e romântico, principalmente se ele não estiver disposto a isso, e um jovem empolgado não pode se contentar com menos do que deseja. 

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