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|Crítica| 'A Odisseia' (2026) - Dir. Christopher Nolan

|Crítica| 'A Odisseia' (2026) - Dir. Christopher Nolan

Crítica por Victor Russo.

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'A Odisseia' / Universal Pictures

 

Título Original: The Odyssey (EUA/UK)
Ano: 2026
Diretor: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya, Robert Pattinson, Lupita Nyong'o, John Leguizamo e Chrlize Theron.
Duração: 173 min.
Nota: 4,5/5,0
 

A melancolia aterrorizante da fantasia. Christopher Nolan faz da sua Odisseia a obra mais apaixonada de sua carreira

Como tudo que envolve Christopher Nolan, o autor da Hollywood atual mais capaz de construir uma fan base numerosa e apaixonada (e muitas vezes tola e superficial), A Odisseia é um filme que nasce no imaginário popular muito antes de sua exibição nas telonas. Cada novo trailer ou material de divulgação explodia as redes sociais com euforia e apontamentos críticos (como a historicidade “errada” da obra, por exemplo, em seus figurinos). Claro que, como quase tudo na internet, não passava de discussões vazias, ou melhor, de não discussões. 

Mas esse movimento constante e muito antecipado sobre o longa gerava sim uma expectativa sobre o que o cineasta britânico faria ao adaptar uma das obras fundadoras da narrativa clássica, amplamente conhecida, debatida, extensa e adaptada tantas vezes antes para o cinema. Mais do que isso, baseado no cinema do diretor, o que se poderia prever? Seria apenas mais um exercício de ego ao realizar esse épico em formato IMAX e com construções e locações reais, vendendo só escala? Como o homem da razão e da frieza lidaria com uma obra tão humana quanto repleta de fantasia? Esses e outros questionamentos eram debatidos, mas automaticamente perdem o sentido já no texto inicial, que sugere uma devoção de Nolan ao fantástico que está no cerne dessa obra, o que virá se concretizar nas quase três horas seguintes de projeção e na presença constante dos deuses, não tentando apenas interpretá-los ou transformá-los em dizeres daquele povo, mas em figuras humanas ou representações físicas daquele mundo (como o mar revolto ou a tempestade nos céus).

Não há um abandono daquilo que Nolan acredita enquanto cinema, as imagens fotografadas para trazerem escala e uma beleza aparente auxiliadas por seu parceiro de longa data Hoyte Van Hoytema, a trilha sonora chamativa e crescente de Ludwig Goransson, tal qual uma certa sobriedade obscura dessa mise en scéne, que deposita o peso do mundo sobre os ombros de um homem obstinado, tema central de muitos filmes do cineasta, como a trilogia Cavaleiro das Trevas, Oppenheimer e Interestelar. Ou seja, a premissa central da obra e sua escala já eram um prato cheio para aquilo que se conhece do diretor, mas a obra de Homero não para por aí. Faltava toda a devoção dramática, quase espiritual desses homens e deuses, a fantasia e o desespero de cada provação enfrentada por Odisseu (Matt Damon) em sua incessante e interminável volta para casa após ter sua moral, já bastante complexa, destruída na Guerra de Troia. É aí que vemos o Nolan de sempre encontrar um novo homem: o Nolan que permite se entregar e apaixonar por completo.

Se A Odisseia é o filme mais bem dirigido do cineasta em muito tempo (provavelmente em toda sua carreira) é justamente porque finalmente ele entende e dá valor emocional ao seu estilo megalomaníaco. A trilha sonora, a fotografia e a montagem, três marcas constantes de sua carreira, agora têm a existência e a essência de um homem quebrado. Tudo funciona a partir de uma dicotomia constante entre o mundo e o eu, entre o grande e o íntimo. Goransson, brilhante mais uma vez, entende no rosto sofrido e dedicado de Damon os horrores de uma jornada, mas também o fio de esperança que o mantém vivo. Hoytema fotografa grande, mas direciona o olhar para o pequeno. Em meio às grandes paisagens e o mar aberto, a luz se volta para esse homem sendo engolido pelo mundo que ajudou a transformar para sempre. Já a montagem de Jennifer Lame, elemento sempre muito chamativo nas narrativas desse cineasta obcecado pelo tempo, adota um ritmo muito próprio e intrínseco a Odisseu. Ela é presente quando o filme se direciona para o núcleo de Ítaca (que também merece destaque para as excelentes atuações de Anne Hathaway e Robert Pattinson), de forma mais pesarosa e linear, mas se fragmenta em recordações quando o ponto de vista de Odisseu navega esse barco. Um homem quebrado, o homem que mudou o mundo e se arrependeu de suas ações. Todavia, o que ele poderia fazer? Aquele é o seu cerne, genial e trapaceiro tanto quanto apaixonado. Vê-lo a partir das interações com Calypso (Charlize Theron) e suas visões de Athena (Zendaya) faz compreender cada fragmento de sua existência, a obstinação adormecida pelas ações que rompem sua mente e fazem do passado fragmentos que jamais serão esquecidos.

Tudo isso funciona não só porque Nolan dá “sentido” à sua técnica, àquilo que sempre esteve presente em sua carreira, mas sim porque o cineasta encontra em seu corriqueiro a possibilidade de fazer algo novo. A Odisseia é um Nolan que de fato se apaixona. Ele não deixa de fazer a sua versão da obra de Homero, só que essa percepção é resultado de uma manutenção da identidade do que veio antes e tanto influenciou todos nós. Em último caso, o britânico se desprende do ego tão aparente em suas obras e se joga de corpo e alma ao campo das emoções, entendo que ele não é nada frente a essa epopeia extraordinária. Ele entende que não existe A Odisseia sem uma real conexão emocional, sem o sofrimento e raiva sendo sentidos de fato tanto quanto a esperança que move a humanidade. Se Odisseu é grande nas histórias sobre a guerra, agora ele é só um homem querendo voltar para a ilha que te abraça com amor, representada por Penélope, que despeja a mesma devoção no único homem que foi capaz de amar. 

Só que essa é uma paixão que não pode ser explicada, ela ultrapassa o mundo dos homens. É o amor pelos deuses e dos deuses por suas criações. Ganha uma carga espiritual que só alguém muito devoto pela obra original seria capaz de transpor em imagem. Nolan o faz com amor, mas também com desespero. Sua maior contribuição ao imaginário da Odisseia talvez esteja em como encenar o horror, tanto físico como psicológico, mais uma vez, com paixão. Se a adaptação é bastante fiel em história (joga a flor de lótus para outro lugar e exclui uma ou outra passagem no processo, mas mantém a quase tudo ali no todo), a interpretação acontece em como as imagens agora ganham poder para além da beleza, no horror. O filme é sombrio, mas nunca sóbrio. As imagens nunca são austeras ou desprovidas de sentimento. O diretor do racional, sombrio e realista agora faz sua mise en scéne ser dor, força e sentimento. Isso ganha presença com a trilha e com a montagem, que criam uma narrativa compreendendo o martírio de cada provação, cada perda. Toda vez que aquele barco para em uma ilha, o filme para junto. Dá atenção a cada horror, do ciclope às transformações corporais de homens em porcos promovidas por Circe (Samantha Morton extraordinária). É o mais próximo que Nolan chega de fazer um filme de horror, de fato aterrorizando pelas imagens viscerais e os corpos sendo profanados. É um longa que a dor é sentida em todos os corpos, física e psicologicamente. Isso é sentido inclusive em como as memórias da guerra ou dos mares também são encaradas com horror, o sentimento de algo muito grande para aqueles homens lidar.

No fim, percebemos mais uma vez que não existe análise de véspera, nem quando se trata de um cineasta que tanto conhecemos. Se Nolan já parecia mais maduro em Oppenheimer, aqui atinge um novo patamar, se desprende do seu ego, se entrega à obra e faz o seu estilo servir ao que tanto ama. Nolan ama Ilíada e Odisseia, assim como ama suas obras anteriores, só que dessa vez ele permite que essa paixão navegue pelas imagens, pela música e pela dor que atravessa cada um de seus personagens. Nolan agora é também emoção, dor, impetuosidade e, por que não, esperança.

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