|Crítica| 'A Morte do Demônio: Em Chamas' (2026) - Dir. Sébastien Vanicek
Crítica por Victor Russo.
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'A Morte do Demônio: Em Chamas' / Sony Pictures
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O desespero pela sucessão frenética de imagens caóticas e próximas desestabilizam o espectador e engolfam a seriedade de um tema que mais freia do que se impulsiona pelo horror
A Morte do Demônio: Em Chamas compreende bem o período histórico cinematográfico ao qual está inserido, para o bem e para o mal, ainda que o primeiro consiga dominar frequentemente o segundo. Após Sam Raimi criar a franquia e fazer dela um dos pilares do terror trash, a cada filme se levando mais para uma tiração de sarro de si mesmo, mas sem nunca perder o refino, foi Fede Alvarez, sofrendo uma pressão temática ainda tímida do começo dos anos 2010, inseriu “temas mais sérios”, tendo sua final girl como alguém dependente química e o mal como uma espécie de metáfora do que ela precisa superar. Dez anos depois, o ainda mais habilidoso para furar a barreira do comum e criar beleza a partir do grotesco e escatológico, Lee Cronin pensou a maternidade e os preconceitos sociais de maneira implícita a um filme de sobrevivência em um espaço reduzido. O que ambos conseguiram foi dar às suas final girls conflitos à altura, enquanto os temas se faziam presentes, mas nunca precisavam ser mastigados e reforçados ao espectador.
Sébastien Vanicek chega então como mais um diretor a comandar um filme único e independente na franquia (por enquanto), dando a sua cara sem perder de vista as bases esperadas para um Evil Dead: a escatologia, o banho de sangue, o grotesco, a câmera subjetiva do mal chegando etc. Ao mesmo tempo, o francês é o primeiro a de fato sentir o peso do período em que está inserido, o que consegue transformar em estética e ritmo narrativo, mas não sem criar desvios meio tolos para reforçar o tema central e, claro, a imposição de uma Hollywood falida, que obriga a transformar a franquia em filmes interligados e não mais independentes como sempre foi na era-Pós Raimi.
Assim, a cada cinco ou dez minutos A Morte do Demônio: Em Chamas faz questão de inserir um flashback relembrando a gente de que o longa fala sobre relacionamentos abusivos, sobre maridos agressores e a dificuldade das mulheres em dar fim a esse mal que as perseguem literal ou metaforicamente até o fim de suas vidas, nem que seja pela família do ex-marido ou pela sociedade a julgando. Se o tema em si é válido, sua constante repetição recente no gênero faz com que esteja saturado, sobretudo pela falta de novas abordagens ou algo diferente a dizer. É resultado de uma resposta artística à onda reacionária que tomou conta de boa parte do mundo digital durante a última década e um pouco mais, e, como consequência, os discursos levantados por essas obras passaram a ser cada vez menos subjetivos ou subliminares, adotando a repetição do que se tem de mais claro, seja verbalizando as mesmas frases de efeito ou inserindo flashbacks para sugerir o que já está explícito.
Boa parte do horror (gênero historicamente propício para subtextos e comentar sobre o mal de cada período) contemporâneo tem ficado restrita a essa primeira “camada”, o tema como o filme em si, e não mais a emoção corporal provocada no espectador. Por sorte, nesse sentido, Vanicek mira mais no que os melhores filmes recentes da Blumhouse (como Obsessão e Sorria 2) têm feito do que em obras da A24, Neon e outras produtoras/distribuidoras queridinhas de uma cinefilia que se acha mais intelectual do que o “povão” e por isso prefere o “drama” ao terror, rebaixando o segundo como algo menor.
Dessa forma, as interrupções não interferem tanto em uma narrativa que adota um ritmo contemporâneo, muito baseado na lógica dos constantes estímulos, dignos de reels ou Tik Tok, mas para isso dá uma imagem que é aterrorizante e desesperadora por si só. E isso não faz referência apenas aos visuais grotescos de corpos e rostos dilacerados, mas a uma sucessão de imagens dessaturadas e próximas, que nos faz perder a noção de um espaço maior para se identificar com aqueles corpos e rostos em constante deformação e luta pela sobrevivência. É uma mise en scéne que preza por essa frenesi claustrofóbica, um filme que não permite que o espectador respire. Se não é tão bem acabado quanto o filme de 2013 e nem tão belo pelo grotesco como o de Cronin, o cineasta francês consegue fazer esse sentimento constante de sufocamento da imagem colocar o longa bem ao lado de seus antecessores. Impressionantemente, é justamente essa sensação a partir do refino de uma estética contemporânea que dá mais peso ao que a protagonista passa do que quando a narrativa para e nos diz sobre o seu relacionamento.


