|Crítica| 'Vidas Entrelaçadas' (2026) - Dir. Alice Winocour
Crítica por Raissa Ferreira.
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'Vidas Entrelaçadas' / Synapse Distribution
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Com narrativa desequilibrada entre diferentes jornadas femininas, Alice Winocour não aproveita bem seus melhores pontos
Alice Winocour, diretora e roteirista de Vidas Entrelaçadas (Couture), inicia seu filme apresentando à pessoa espectadora, primeiramente, a personagem de Angelina Jolie, que também ilustra o pôster da obra e muitas imagens de divulgação. O chamariz é um tanto óbvio, porém, a atriz largamente conhecida pelo público, mas que tem trabalhado cada vez menos nas telonas, não é a única personagem central da trama, ou pelo menos é a ideia que tenta ser vendida. Na verdade, o público talvez seja duplamente ludibriado aqui, primeiro ao pensar que trata-se de uma narrativa em que Jolie é a protagonista, até que outras histórias passem a dividir o tempo de tela em que ela não está presente, segundo ao acreditar que as outras jornadas serão acompanhadas com a mesma relevância, ou que se unirão com algum sentido mais concreto.
Maxine (Angelina Jolie) é uma mulher na casa dos 40 que desembarca em Paris para a semana de moda. Seu trabalho é, na verdade, um tanto mais interessante do que Vidas Entrelaçadas consegue demonstrar, afinal seu foco é outro. Enquanto a cineasta de filmes independentes de horror produz uma obra de abertura vampiresca para um desfile, o longa passa a permitir que sua narrativa flua entre outras mulheres, a maquiadora Angèle (Ella Rumpf), que quer ser escritora, e a novíssima modelo Ada (Anyier Anei) que vem do Quênia, onde cresceu fugindo da guerra de sua terra natal, buscando melhores oportunidades de vida para sua família. Embora sejam essas as 3 linhas que parecem centrais a Vidas Entrelaçadas, ainda há a estilista Christine (Garance Marillier), que ganha tanto destaque quanto as outras duas.
A ideia de Alice Winocour provavelmente era navegar a semana da moda na França, trazendo pautas importantes a partir de suas personagens com vivências tão diferentes. A estadunidense que descobre um câncer - em uma história inegavelmente conectada à própria Jolie e sua experiência com a mãe, seus testes genéticos e cirurgias preventivas -, e precisa navegar um divórcio, maternidade, trabalho, sexualidade e afins, com esse conturbado momento. A modelo chegando em um universo totalmente novo, com toda sua bagagem emocional, estranhamento pelo novo contexto e pessoas, e um desinteresse pela profissão, já que a verdadeira paixão era a farmácia, mas precisa modelar para fazer dinheiro. E, por fim, a maquiadora que quer ser escritora, mas encontra barreiras para sair de seu trabalho criativo, que é praticamente robótico neste momento, e ir para algo mais aprofundado em suas emoções.
Porém, embora as personagens se encontrem em alguns pontos, suas histórias são mais dadas separadamente e fica difícil compreender qual conexão há em suas jornadas, que as tornem robustas o suficiente para se alternarem em tela, além do simples fato que são mulheres passando por alguma coisa, seja lá o que isso signifique. Vidas Entrelaçadas, além disso, sofre para distribuir o peso entre Maxine, Angèle e Ada, até mesmo deixando que qualquer outra mulher que apareça ao longo da obra também pegue para si um tanto de protagonismo que deveria estar mais para o lado da maquiadora ou da modelo, que acabam apagadas no meio da história da cineasta com câncer.
Não é que o problema seja que o filme queira tanto destacar as vivências femininas que acabe o fazendo até mesmo com as pequenas participações, a questão é mais a falta de equilíbrio e objetivo, tornando este um exercício vazio, como já visto outras vezes. É óbvio que Jolie chama mais atenção, então talvez seria mais honesto simplesmente dar a ela o protagonismo completo e dedicar-se a esta história tão moldada para ela, do que negligenciar outras trajetórias. Ada, por exemplo, é peça central em uma história interessante, pois ela mesma e suas parceiras de cenas são atrizes com pouca ou nenhuma experiência, trazendo essa perspectiva mais independente, e quase documental, de um cinema que se debruça na vivência específica do momento. No entanto, os poucos momentos são largados sem consistência com o restante, e as modelos parecem apenas jovens falando de dinheiro e fama o tempo todo, o que soa bastante distante da realidade.
Angèle, então, é praticamente abandonada pelo filme, retornando ao final com uma desculpa esquisita para unir as narrativas das três mulheres. O que há de mais interessante em Vidas Entrelaçadas é imaginar como seria uma obra mais focada no trabalho de Maxine, (afinal, quem não tem vontade de ver Angelina Jolie dirigindo filmes de terror com vampiras?) ou um drama mais honesto que realmente acompanhasse esse momento complexo de vida.


