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|Entrevista| Coletiva de Paul Mescal para o lançamento de 'Hamnet'

|Entrevista| Coletiva de Paul Mescal para o lançamento de 'Hamnet'

Dirigido por Chloé Zhao, o filme estreia dia 15 de janeiro nos cinemas brasileiros via Universal Pictures.

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Durante o ciclo de entrevistas para o Globo de Ouro, Paul Mescal respondeu às perguntas dos jornalistas de todo o mundo, entre eles, Victor Russo, da Filmes e Filmes.

Indicado ao Globo de Ouro de Ator Coadjuvante por Hamnet, Mescal é um dos destaques da temporada de premiações e respondeu sobre o seu papel como Shakespeare e também sobre todo o trabalho com a cineasta Chloé Zhao.

Veja um trecho da entrevista a seguir:

 

O que há de único em um set da Chloé Zhao que as pessoas não saberiam, a menos que fossem você e tivessem a chance de ser dirigidas por ela?

PAUL: Ela é a diretora mais espiritual com quem já trabalhei. Ela também se interessa muito por fisicalidade - não necessariamente em termos de escolhas físicas, mas em não falar sobre a cena, e sim senti-la. Então fizemos muito trabalho somático e físico.

E não sei se vocês já ouviram falar disso, mas fizemos muito trabalho com sonhos. Muito do que fazíamos era meio não tradicional - em vez de passar pelas cenas e analisar cada momento, era mais como fechar os olhos, tatear no escuro por algo que parecesse verdadeiro, e então trabalhar a partir daí.

Você tinha uma ideia totalmente formada de sua performance antes de filmar cada cena? Ou deixava alguns elementos para improvisação no set?

 

PAUL: É, era meio isso que eu estava tentando dizer. Não discutíamos. Tipo, quando terminávamos o dia, não nos reuníamos para discutir como seria o dia seguinte. Acho que, como ator, você precisa ter uma ideia sobre o personagem - não exatamente uma ideia, você precisa saber quem o personagem é. Mas não acho que você precise planejar necessariamente como as cenas vão ser. E não sei se eu já tinha colocado isso em prática antes no meu trabalho - às vezes existe essa sensação de improvisação.

Mas isso realmente depende do diretor. Acho que a Chloé estava muito interessada nesse senso de jogo e descoberta no momento. Obviamente, certas cenas são mais propícias a isso, como a cena que mencionei antes, quando eu vou embora pela segunda vez e a Jessie meio que balança o braço para me acertar no rosto - nada disso estava no roteiro. E não discutimos o bloqueio da cena, porque a Chloé queria muito filmar o plano em si. Há pouquíssima cobertura nessa cena, basicamente um plano aberto.

Então, com isso, não discutimos nada. E me lembro de eu e Jessie meio que circulando um ao redor do outro como tubarões antes de começarmos a filmar. Estávamos meio não verbais um com o outro naquela manhã. E naquela manhã acho que fizemos três ou quatro takes. E um deles - que foi bizarro, mas meio brilhante — acabou com a gente em cima da mesa, nos beijando. Era uma energia muito sexual. E outros eram totalmente brutais e vazios. E era só sobre conter a Jessie.

E, se existe algo que identifique como foi o processo para mim, acho que é aquela cena.

Quão importante foi criar uma versão do escritor como ambos? Como você fez isso?


PAUL: Para quem não leu o livro, ele não é chamado de William Shakespeare. Não o conhecemos como William Shakespeare. Nós o conhecemos ou como o marido, oou como Will.

E eles meio que soam novelescos quando você está lendo o livro, mas na verdade estão te dizendo qual é o assunto do filme em relação a ele. Ele é o marido da protagonista, que é Agnes, interpretada por Jessie Buckley. Ele não tem consciência do seu próprio mito, porque ele ainda não existe. Ele é um artista de Stratford que nem sabe ainda que é um artista. Ele precisa ser avisado disso. Precisa ser incentivado por Agnes a ir e fazer aquilo. Não há ainda nenhum senso de grandeza nele.

Há uma espécie de sensação de que existe algo elementar dentro dele que precisa ser liberado. Mas ele precisa da Agnes para isso. Isso fez com que o escritor e o artista se tornassem algo secundário para mim — era mais sobre alguém que é um grande artista porque investe tão profundamente nos relacionamentos ao seu redor. Acho que, apesar de todas as suas ausências, ele ama ser pai. Ele ama seus filhos. Ele ama sua esposa.

A ideia dele ser um grande escritor, um humanista, acho que vem do fato de que ele investiu muito plenamente na vida dele e meio que me lembra que é isso que nós precisamos fazer como artistas. Porque é muito fácil -especialmente em momentos como este, quando você está em uma turnê de imprensa, por exemplo, falando sobre arte o tempo todo, ou na estrada, ou no set - se você não voltar ao poço da sua própria vida, como a Jessie falou ontem no Q&A, você vai ficar sem água. Vai ficar sem espaço de onde suas ideias sobre humanidade vêm.

Então acho que era isso, no fim das contas, que o filme estava interessado em discutir.

Que desafios você enfrentou como ator ao interpretar uma perda tão profunda quanto a que seu personagem vive, conseguindo ao mesmo tempo manter a força para apoiar a esposa, enquanto despeja suas emoções em uma das maiores obras teatrais de todos os tempos?

PAUL: Há momentos difíceis ali. Eu diria que as últimas três semanas de filmagem… foram meio divididas ao meio. Filmamos praticamente de forma cronológica. Então passamos o primeiro mês no mundo de eu e Agnes nos apaixonando, o que foi um tempo tão divertido e glorioso - correndo pelos bosques com a Jessie Buckley e a Chloé, e era tudo muito íntimo.

E chegamos a esse entendimento de que isso era tão importante quanto a dor e o drama reais que acontecem no filme. Porque, se o público não acreditar de verdade que essas duas pessoas estão apaixonadas e construíram essa família que é o centro da vida delas, então não há nada a perder no final. Então foi bem marcante para mim que, quando terminamos de filmar essa fase - o romance e o nascimento de uma família - eu basicamente tive uma semana de folga, e a Jessie foi direto para a cena da morte e a cena do parto. Ela filmou essas duas cenas por uns sete ou oito dias.

Lembro-me de uma espécie de “a arte imitando a vida”, mas eu estava nesse quarto de hotel corporativo em Shoreditch pensando: “Ah, eu sei o que a Jessie está passando por causa do cronograma.” Eu me sentia ausente. E meu primeiro dia de volta foi chegar e ver o Hamnet morto. Em termos de quão doloroso um dia de filmagem pode ser, esse está lá no topo - chegar correndo em casa achando que sua filha está doente, ser recebido por ela na porta… e achar que é o maior alívio do mundo - sua filha está viva - e então descobrir que nunca foi ela, e sim seu filho. Só tentar modular esse sentimento… porque isso poderia se manifestar de cem maneiras diferentes. Você poderia estar uivando. E, novamente, há muitas tomadas dessa cena em que há colapsos completos. E fico muito feliz que a Chloé escolheu a tomada que escolheu, porque eu e Jessie estaríamos expressando a mesma coisa ao mesmo tempo.

E não acho que isso teria funcionado. Para Agnes, o luto é imediato; para Will, leva até ela ver a peça para que ele finalmente desmorone. Eu e a Chloé conversamos sobre isso — acho que a primeira vez que ele realmente chora depois da morte do filho é nos bastidores do teatro. Meses depois de o menino ter morrido. Porque Jessie - ou Agnes - já tinha visto isso. Então toda essa parte, essas três semanas, foram bem brutais.

Como foi a preparação para a cena da peça? E quão difícil é expressar, sem dizer nada, o sentimento de revelação, de descoberta do outro através da arte?

PAUL: Eu amo estar no palco. Foi ali que eu realmente me formei. Fiz escola de teatro e sempre achei que acabaria atuando apenas no palco. E provavelmente é o meu meio preferido para estar.

E isso é obviamente complicado, porque você está interpretando Shakespeare no palco, dizendo suas palavras. Então existe uma certa pressão que vem com a linguagem, e esse provavelmente era meu maior medo - você tem a oportunidade, com esse personagem, de dizer: “Ah, aliás, Shakespeare não é só poesia. É visceral.” E não sei se você… tipo, eu tenho visto muitas produções de Shakespeare recentemente, no Reino Unido e em lugares por onde passei, que para mim parecem pender demais para a poesia e para esse entendimento acadêmico de quem esse homem é.

E, na verdade, o que este filme está dizendo é que ele escreveu essa peça a partir da morte do próprio filho. Então, na minha teoria, ele não está colocando a poesia em primeiro plano - ele está colocando seu sentimento e sua humanidade no centro do seu trabalho. E acho que é isso que a peça, que ele nos dá tão generosamente, comunica. Eu não tomo mais como garantido, quando vejo uma peça de Shakespeare, que por trás dela há um ser humano que passou por uma perda tremenda, tremenda, e que muito generosamente nos ofereceu esse sentimento para sempre.

Não sei se eu teria essa coragem. E, para ser franco, não sei se há muitos artistas hoje que tenham esse nível de… de colocar toda a sua dor e construir um templo para seu filho - e nós podemos experimentar isso. Há um grande privilégio que acompanha essa arte, e acho que isso é algo que, tendo o interpretado, provavelmente eu quero comunicar com mais coragem: que, na verdade, se você tem algo a dizer, ou algo que aconteceu na sua vida, e você se sente corajoso o suficiente para comunicar, você tem que fazer isso. Tem que se inclinar para isso, tem que dar o passo.

E obviamente este é um exemplo extremo, mas aconteceu com ele. Dos poucos fatos que sabemos sobre Shakespeare, sabemos que seu filho morreu e que seu nome era Hamnet. E dois anos depois ele escreveu a peça Hamlet. Isso não é coincidência, sabe?

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