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|Crítica| 'Babilônia' (2022) - Dir. Damien Chazelle

|Crítica| 'Babilônia' (2022) - Dir. Damien Chazelle


Crítica por Victor Russo.

'Babilônia' / Paramount Pictures

 

Título Original: Babylon (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Damien Chazelle
Elenco : Brad Pitt, Margot Robbie, Diego Calva, Jean Smart, Flea, Jovan Adepo, Li Jun Li e Tobey Maguire.
Duração: 189 min.
Nota: 4,0/5,0
 

Entre a paixão pelo cinema e o desespero por trás da tela, Damien Chazelle substitui o virtuosismo saudosista pelo caos estético, interessando-se pelos personagens mais como peças da engrenagem de uma máquina de destruição

Chegando ao seu quarto longa-metragem, Chazelle tem uma carreira marcada pelo olhar para o passado, quase sempre de forma saudosista, e a preocupação pelo virtuosismo estético, com uma decupagem sempre cheia de movimentos de câmera expressivos, seja em planos de grua ou “chicote” (efeito provocado pela câmera se movimentando rapidamente de um lugar a outro, em um vai e volta entre esses dois espaços/personagens). Ao mesmo tempo, o seu cinema sempre teve interesse pelo humano nesses momentos específicos, seja a obsessão pelo jazz como a música verdadeira dos protagonistas de “Whiplash” e “La La Land”, o casal de “La La Land” em Los Angeles ou o íntimo e tímido Neil Armstrong em “O Primeiro Homem”. 

Em “Babilônia”, Chazelle não tenta reinventar o seu cinema, mantém uma certa dose de saudosismo, assim como uma estética expressiva e o olhar para o passado. Porém, sua preocupação pelos personagens se move para um sistema maior: a indústria cinematográfica hollywoodiana. Dessa forma, o filme tem esses quatros personagens centrais e os demais coadjuvantes quase que como peças de uma engrenagem. Essa Hollywood que vende uma magia na tela, mas tudo que está por trás e fica escondido nada mais é do que uma máquina de destruir reputações, sonhos e vidas.

É quase como se o filme e o sentimento de Chazelle estivessem resumidos nas sequências iniciais e finais do longa. Ao abrir com o elefante que é apenas um fetiche pomposo e desnecessário para a festa, o diretor julga aquela indústria como esse negócio grande, caro, mas que faz uma quantidade absurda de merda. Por outro lado e muito mais significativo e poderoso, o longa fecha com Manny (Diego Calva) sentado no cinema vendo “Cantando na Chuva” (filme de temática idêntica a “Babilônia”, mas de visão muito mais otimista e sonhadora), antes de Chazelle nos atacar com uma série de imagens de obras que marcaram a história da sétima arte (funcionando como pensamentos tanto do personagem quanto do próprio diretor). Então, voltamos para aquela sala escura e vemos o protagonista chorando e rindo ao mesmo tempo. É essa ambiguidade entre amar o cinema e suas belas obras e o sofrer se desesperar com a indústria por trás da tela que é a essência do longa.

Assim, Chazelle ainda tem uma visão de amor a essa arte do passado, inclusive o jazz se faz presente mais uma vez (mas dessa vez com personagens negros, corrigindo a ótica problemática de “La La Land”). Porém, esse amor nunca é puro e simples, ele sempre vem seguido por um caos destruidor, que pode até soar engraçado para o público pela série de situações bizarras geradas, mas, no fundo, é desesperador para aqueles que estão fazendo filmes, mesmo esse percebendo tudo isso apenas anos depois. 

Isso fica claro nas duas melhores sequências do longa. A primeira envolve uma montagem paralela de três locais e duas produções acontecendo, sendo a principal delas o filme em que Jack Conrad (Brad Pitt) está atuando e para o qual Manny desesperadamente precisa conseguir uma câmera antes do pôr do sol. A segunda é o primeiro filme sonoro de Nellie Laroy (Margot Robbie), e retrata como o cinema regrediu em termos de linguagem nos primeiros anos após a descoberta do som. Isso porque, se por um lado o som tinha o potencial de tornar o filme mais “real”, e foi incorporado pelos estúdios por razões financeiras também (a novidade que atrai o público), por outro, o sensível e fixo microfone obrigava a câmera a ficar imóvel (esta tinha que ser “guardada” dentro de caixas acústicas, pois o som que ela fazia era ouvido no microfone) e os personagens tinham de ficar em marcações próximas aos microfones, limitando o movimento em tela e tirando a naturalidade das atuações. Ambas as sequências são carregadas de forma deliciosa por essa dicotomia, de um ponto de vista, a paixão por narrar a história do cinema e as dificuldades de se fazer um filme, do outro, o caos tóxico, exploratório e psicologicamente nada saudável que a indústria exige.

E é justamente esse caos como força motriz da narrativa que dá força ao virtuosismo estético de Chazelle. Mais do que compor planos bonitos, com atuações marcantes e movimentos de câmera difíceis, a mise en scène do longa transpira essa energia caótica que retrata o “por trás das câmeras”, seja nos sets de filmagens, festas ou nos momentos íntimos dos membros dessa indústria. A decupagem, seja por cortes rápidos, planos longos, montagens paralelas, “chicotes”, gruas e afins, é marcada por essa câmera que se torna aparente e presente, mas mais parece uma mosquinha tentando filmar aquela ação desgovernada e imprevisível, e nem sempre sendo capaz de acompanhar. É uma Hollywood tão explosiva que nem mesmo a câmera do autor da obra é totalmente capaz de registrar tudo.

Então, é por ter toda a força temática e estilística centrada nesse ritmo frenético da decupagem, da música martelando o caos nos nossos ouvidos e as atuações cheias de movimentos e energia, que o filme funciona menos quando deixa de ver aqueles personagens como seres destruídos ou prestes a serem destroçados por aquela máquina de fazer dinheiro e acabar com vidas e reputações, e busca uma profundidade pessoal maior, sobretudo em um romance que tem dificuldade de captar o interesse do público ao ser apresentado logo após a sequência mais nonsense que o submundo de Los Angeles é capaz de apresentar. 

Não que o filme querer que nos importemos com os personagens seja um problema, até porque acompanhamos todo esse caos destrutivo a partir da pele deles. A questão é que a tragédia pessoal de cada um funciona melhor em uma lógica maior, quando esses são colocados como peças insignificantes prestes a serem esmagadas por uma indústria misógina, racista e que rejeita qualquer coisa que fuja da jovialidade padrão do estrelato hollywoodiano (é só perceber como até o galã branco é posto de lado quando passa dos cinquenta e poucos anos), do que em fugas de amor para o México. Felizmente, o longa dá um fechamento interessante e pessimista para cada um desses personagens, seja a fuga, o retorno ao passado ou a dança para a escuridão eterna.