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|Crítica| 'The Batman' (2022) - Dir. Matt Reeves

|Crítica| 'The Batman' (2022) - Dir. Matt Reeves


Crítica por Victor Russo.

'The Batman' / Warner Bros. Pictures

 
 
Título Original: The Batman (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Matt Reeves
Elenco : Robert Pattinson, Zöe Kravitz, Paul Dano, Colin Farrell, Jeffrey Wright e John Turturro.
Duração: 176 min.
Nota: 5,0/5,0

 

Matt Reeves retorna aos quadrinhos para criar o seu Batman detetive, gótico e perturbado, em um filme de serial killer noventista e voyeurista.

 

Mais do que apenas falta de novas histórias e apostas constantes em franquias intermináveis, o que está impregnado nos blockbusters da última década, principalmente filmes de super-heróis, mas não só eles, é uma fórmula pronta que vende bem e é replicada à exaustão. Com isso, sempre os estúdios seguem ou pela lógica Nolan de fazer filmes de grande orçamento ou pela fórmula Marvel. 

Ou seja, ou é uma obsessão pelo sombrio, realista e pretenso a temas “inteligentes” ou é a aposta na diversão colorida e cheia de piadinhas e fan services que tentam amarrar um universo. Em alguns casos, como no próprio MCU, as duas lógicas se misturam, como quando em filmes como “Thor” há uma busca pseudo científica para explicar a vinda de um Deus para a Terra (isso ocorre por todo o Universo Marvel, que nunca aceita totalmente a fantasia).

Porém, em meio a um mar de obras que nascem prontas e com cara do estúdio, aparecem diretores como Matt Reeves, capazes de imprimir uma visão, fazer um filme de gênero e mostrar que ainda há espaço para bons diretores que se conectam com um público grande, basta dar espaço a eles. Então, se em seus dois ótimos filmes da trilogia “O Planeta dos Macacos” o diretor flertou fortemente com o faroeste e os filmes de guerra, em seu “Batman” ele volta a romper com a fórmula do blockbuster atual e retorna aos filmes de serial killer da década de 90 (e um pouco ao noir) para construir uma obra que mergulha na origem do personagem nos quadrinhos.

Apresentado na Detective Comics Nº 27, o personagem sempre foi nas HQs muito mais um detetive formidável do que um super-herói clássico. Tanto que quando junto a Liga da Justiça, sua maior virtude estava na inteligência e no planejamento. E, por mais que os filmes de Nolan, sobretudo O Cavaleiro das Trevas, até busquem um pouco desse lado mais investigativo, o interesse do diretor sempre foi um pouco diferente, mais voltado para o grandioso e, em alguns momentos, até megalomaníaco.

Por isso, o grande trunfo de Reeves é ter uma visão clara para o personagem, que em parte busca referências em “Ano Um” e “O Longo Dia das Bruxas”, mas, ao mesmo tempo, consegue criar algo bastante autêntico, usando a proximidade com quadrinhos e gêneros cinematográficos como uma forma de crescer o seu filme.

Assim, partimos de um filme fechado em um escopo menor. Mesmo que o Charada exponha desde o início os assassinatos para toda Gotham, seja pela imprensa ou pela internet, Reeves volta o seu filme visualmente para poucas ambientações, quase como um submundo que existisse fora da vista da população de Gotham. Não à toa, pulamos entre poucas locações e quase sempre voltamos à boate secreta.

Até na relação já estabelecida entre o Batman e Gordon (Reeves acerta ao entender que o público já conhece a origem do Batman e só retorna a ela como assombração ao personagem, nunca precisando recorrer aos flashbacks de sempre), a preocupação está voltada para a investigação secreta em curso. Podemos assim, nos aproximar do personagem e tentar desvendar os enigmas ao seu lado. O detetive Batman finalmente ganha as telonas.

E, para isso, Reeves demonstra a sua grande virtude para a obra: entender como o tempo é primordial nos filmes desse gênero. Somos levados aqui por uma decupagem de planos mais longos, sem os cortes rápidos para piadas, por exemplo, que tomou conta dos filmes de super-heróis atualmente. Muitas vezes, o diretor vai enquadrar personagens e resolver o grosso da cena em apenas um plano (como na primeira aparição do Charada, digna dos melhores filmes de terror). O mesmo vale para o uso do escuro, que serve para esconder elementos por um tempo da cena ou criar sugestões.

Dessa forma, o cineasta não recorre a exposição para desenvolver seus temas, mas, sim, os resolve de forma visual e puramente cinematográfica. As cenas de ação então deixam de ser apenas cenas de ação e vemos ali quem é aquele personagem quando trajado, violento, destemido, capaz de apanhar e bater, usar o escuro ao seu favor, sem medo de se entregar por completo pelo que acredita. Nenhuma frase precisa ser dito para entendermos isso. O mesmo vai acontecer na tensão sexual crescente entre ele e a Mulher-Gato, que parece pulsar na tela com a respiração pesada e os olhares penetrantes de Robert Pattinson e Zoe Kravitz durante longos segundos.

Ao mesmo tempo, é no visual e na atuação de Pattinson que Reeves compõe um personagem completamente diferente sem o traje, sem precisar recorrer àquelas frases clichês explicando que o Batman é a persona dominante de Bruce Wayne. Mais uma vez o ator mostra porque é um dos melhores do momento.

É visualmente e sem pressa também que Reeves constrói a principal relação do longa, entre herói e antagonista, Batman e Charada, justiceiros de métodos diferentes, o primeiro tentando descobrir quem é e como pode mudar aquela cidade, o segundo decidido de seu grande plano. Só que, por mais que os métodos sejam diferentes, ambos, no fundo, desejam algo semelhante, o que Reeves expõe ao criar rimas visuais entre os planos por ponto de vista dos personagens.

Ambos se tornam voyeurs em alguma medida, o Batman quando é incapaz de executar seu plano e precisa improvisar observando terceiros, já Charada não só observa suas vítimas como parece se tornar o grande voyeur de todo o longa. É como se ele controlasse completamente a narrativa e estivesse observando tudo o tempo todo.

Não à toa, a narrativa vai seguir o plano do personagem, não só em acontecimentos, mas principalmente em escala. Voltemos rapidamente para o filme de detetive “menor” dos dois primeiros atos que citei há pouco. Agora comparemos com o terceiro ato que cresce em escala e acontecimentos, aumenta a velocidade e urgência. Só que, diferente dos filmes de super-herói que fazem isso por mero protocolo, de deixar a diversão grandiosa para o clímax, aqui Reeves faz isso aos moldes da ambição de Charada. O filme é pequeno quando ele quer que Batman consiga resultados no submundo do crime, mas cresce quando executa o seu grand finale para toda a cidade. Como o próprio Batman diz, a cidade é um barril de pólvora prestes a explodir e Charada é o fósforo. O filme explode apenas quando o fósforo decide ser riscado e libera suas chamas decisivas.

Dessa forma, Reeves mostra mais uma vez porque é um dos grandes em Hollywood no momento. Estrito a uma visão clara para o universo da sua obra, ele faz de seu vilão o modulador da narrativa que aproveita da indecisão do herói para se desenvolver. Ao mesmo tempo nos aproxima de Batman para mostrar aquele mundo sob seus olhos sombrios, góticos, pessimistas, mas com um fundinho de esperança. Não é o filme em que você vai sair alegre do cinema, mas nem precisa ser, porque se os filmes de super-heróis pretendem existir por mais tempo, eles precisam aprender a se renovar. Nesse sentido, “Batman” é o diferente que vem refrescar o gênero com escuridão.