|Crítica| 'Desconhecidos' (2025) - Dir. JT Mollner
Crítica por Victor Russo.
![]() |
'Desconhecidos' / Paris Filmes
|
Willa Fitzgerald vira ponto-chave para a manutenção do dispositivo narrativo, que se enfraquece quando revelado
Desconhecidos faz parte daquela gama de produções de terror, sejam americanas, europeias ou asiáticas, que só ganham distribuição oficial no Brasil meses após fazerem sucesso e se tornarem populares no torrent. É bem comum esses longas serem abraçados por parte da cinefilia por fugirem do mais convencional, seja com elementos narrativamente pouco usuais, como a combinação de gameplay e cinema de fluxo em In A Violent Nature, ou mesmo por uma hiperestilização, como no francês MADS. Só que, quase sempre, essas obras se vendem mais pela ideia do que por uma execução realmente bem acabada. São filmes que quase sempre ficam no meio do caminho, às vezes suficiente para transformar suas propostas pelo menos em algo efetivo, na maioria das vezes morrendo nessa premissa. O novo longa de TJ Mollner é bom o suficiente para receber essa atenção, mas sofre por sustentar sua narrativa-dispositivo até o final.
A divisão em seis capítulos e mais um epílogo, construída fora de ordem como uma forma de montar um quebra-cabeça que iremos montando ao juntar essas peças a partir do momento que obtemos as informações, é a maneira encontrada por Mollner por fazer Desconhecidos fugir da simplicidade que sua história teria linearmente, mas, também, brincar com a própria noção de expectativa e julgamento do público a partir da interpretação de Willa Fitzgerald. Se o terror nos acostumou a ter o corpo feminino violado e a final girl como o tropo narrativo mais tradicional, muito comum em filmes de assassinos mascarados ou serial killers, a construção da montagem imediatamente se liga ao que esperamos e associamos o desespero da protagonista imediatamente ao perigo que ela corre, sozinha, em um quarto de hotel com um homem. Claro que a interferência de Mollner constante vai além apenas dessa ruptura da linearidade, o longa já abre com um texto sugerindo um serial killer real (acreditamos ser um homem pela dominância masculina desses assassinos, tanto reais quanto ficcionais), assim como o longa abre com o personagem de Kyle Gallner a perseguindo, com uma espingarda na mão, enquanto a garota está toda ensanguentada. Isso após flashes rápidos mostrarem ele dizendo que não é um serial killer (uma mentira, lógico, não é?). Quando o filme retrocede alguns capítulos para o primeiro, após esse início in media res (no meio da ação), passamos a entender brevemente a relação dos dois, mas, entre os flertes e as cervejas no carro, Mollner faz questão de deixar aquela mesma espingarda com a ponta aparecendo atrás do banco traseiro. Ligamos as pontas e parecemos entender tudo, até porque, como os créditos iniciais mostram, ele é “O Demônio” e ela “A Garota”.
Mollner é, inclusive, bastante intrometido em sua direção, a trilha grita, os capítulos são desordenados e finalizados antes de ter um final, as luzes neon brilham no carro e no hotel, os figurinos são chamativos, assim como o carro que a garota começa dirigindo. Não há quase nenhuma intenção em ser sutil, o que combina bastante com essa facilidade que o longa tem em nos enganar. Se tudo é evidente, podemos ficar tranquilos com as informações que temos, certo? Óbvio que não, e o espectador mais atento percebe a manipulação rapidamente, antes mesmo do plot twist se revelar na metade do longa. Mesmo assim, pouco se perde na experiência, já que Mollner é competente o suficiente em sua construção de mise en scéne, com esses elementos se conversando para criar a tensão da expectativa. Porém, mais do que isso, tudo funciona graças à Fitzgerald, é ela quem tem a missão de nos vender uma mentira, nos fazer parecer o que não é nesses diferentes momentos de um tempo fragmentado. A donzela indefesa que se revela uma psicopata cruel engana todos os personagens a sua volta, assim como nos ludibria.
Até a escolha de Mollner por revelar a virada na metade e não ao final é interessante. Claro que seria impossível ele sustentar o que acontece depois com a mesma mentira, a partir do momento que a personagem passa a matar a todos à sangue frio (manter o artifício, nesse caso, precisaria fragmentar muito mais a narrativa em tantos outros capítulos, o que soaria um tanto bobo e resumiria tudo a esse único elemento de roteiro e montagem). Ao revelar a verdadeira vilã neste momento, Mollner segue brincando com expectativas, mas agora nós sabemos a verdade, enquanto aqueles que a cercam inocentemente seguem acreditando na mentira. Saímos do lugar de temer por ela e passamos a nos sentir como espectadores impossibilitados de avisar cada nova presa que cai na teia da garota elétrica. O problema é que ao adotar essa linearidade, Mollner não consegue sustentar o interesse e a tensão, cada nova morte se transforma em uma espécie de protocolo de um longa que não sabe se fechar. A obra vai morrendo aos poucos e passa a revelar que a ideia desse segundo momento não funciona na prática. O filme então se mostra mesmo como o seu artifício, quando não tem mais truque, as cordas que sustentam a ilusão são um tanto sem graça.