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|Crítica| 'Na Zona Cinzenta' (2026) - Dir. Guy Ritchie

|Crítica| 'Na Zona Cinzenta' (2026) - Dir. Guy Ritchie

Crítica por Victor Russo.

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'Na Zona Cinzenta' / Diamond Films

 

Título Original: In the Grey (EUA)
Ano: 2026
Diretor: Guy Ritchie
Elenco: Jake Gyllenhaal, Henry Cavill, Eiza González, Rosamund Pike e Fisher Stevens.
Duração: 98 min.
Nota: 3,0/5,0
 

Em uma espécie de antítese ao que o tornou popular décadas atrás, Guy Ritchie, em seu sétimo filme em sete anos, encontra seu longa mais direto e controlado

Guy Ritchie é um dos nomes que surgem no cinema britânico da transição dos anos 90 para o novo século, inclusive, talvez seja o que teve vida mais longeva dentro do aparato hollywoodiano que o recebeu e fez dele um diretor de estúdio. Ainda que os grandes elencos e o orçamento não tão restrito torne difícil chamar filmes como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch de undergrounds, há sim ali um caráter mais independente e amplamente autoral. As tramas de crime fragmentadas em diversas personagens, a fim de não definir exatamente um protagonista e deslocar o foco das narrativas justamente por essa confusão temporal e a imprevisibilidade ações, quase sempre improvisadas, encontravam escolhas visuais que as acompanhavam. Havia uma sofisticação meio suja em como Ritchie filmava, com agressividade, mesmo no uso do slow motion e das transições. 

É claro que o destaque de filmes como os dois citados e outros como Revolver faria com que Hollywood abrisse o olho e o trouxesse para dentro. De Billy Wilder, Alfred Hitchcock e Ernst Lubitsch à Christopher Nolan, Denis Villeneuve e Darren Aronofsky (por mais doloroso que seja colocar os três primeiros juntos aos três últimos em qualquer frase que seja), a indústria americana sempre teve como modus operandi atrair talentos estrangeiros (não só atores, atrizes, diretores, roteiristas, fotógrafos etc, como também técnicos que vão para muito além do cinema) e torná-los seus. Wilder, Hitchcock e Lubitsch são alguns dos melhores exemplos da Hollywood clássica, que mesmo sob a censura do Código Hays, conseguiram conciliar autoria à capacidade produtiva dessa máquina de fazer dinheiro. Em outras palavras, até fizeram concessões, mas foram capazes de manter o que definiam seus excepcionais cinemas.

Nesse sentido, Ritchie é o completo oposto, é o cara que se deixou dominar por Hollywood, e talvez poucos casos são tão emblemáticos quanto o mediano, mas sem personalidade Aladdin (Disney), e o apenas muito ruim Fonte da Juventude (Apple TV+). Claro que, em meio aos filmes de maior distribuição, ele vem acumulando um tanto de obras que remetem mais ao seu início, quase sempre ligados ao cinema de crime e assalto, com elencos cheios de estrelas e quase uma dezena de atores que se repetem entre suas obras. São os casos de longas como Infiltrado, Operação Fortuna, O Pacto e Magnatas do Crime. Se antes demorava pelo menos dois anos entre um lançamento e outro, agora, Ritchie chega ao estágio mais produtivo de sua carreira, com sete filmes em sete anos (tendo um oitavo agendado para o final deste ano). Na Zona Cinzenta se aproxima dessas obras recentes do cineasta, que sobrevivem por terem um orçamento menor do que o blockbuster hollywoodiano atual e conseguem boas janelas internacionais e parcerias posteriores com streamings (é só perceber quantos desses filmes são lançados no Brasil pela Diamond e estão disponíveis no Prime Video). 

Porém, se a maioria desses longas soam como uma tentativa meio distante, mais limpa visualmente e sem tanta inspiração de replicar aqueles filmes que o consagraram, Na Zona Cinzenta merece um olhar um pouco diferente. Apesar dessa fachada de filme de submundo do crime, não há as firulas habituais de Ritchie, nem narrativa fragmentada e cheia de reviravoltas, nem sequer nas suas assinaturas visuais, que fez questão de inserir até em obras menos historicamente contemporâneas, como o seu Rei Arthur. Perceba que nem slow motion há aqui (deve ser o primeiro filme de sua carreira sem o uso dessa técnica). 

Ritchie mergulha em uma espécie de antítese à Snatch. Com seus aproximadamente 90 minutos, Na Zona Cinzenta é direto, não faz uso de reviravoltas, parte direto para o ataque, ainda que esse processo conte com muita explicação e reexplicação daquele plano posto em prática. O cineasta filma da mesma forma, sobretudo a ação, com os personagens, implacáveis, não precisando improvisar, utilizar-se de objetos de cena como arma ou do corpo a corpo. Eles controlam o espaço cênico, executam seus adversários sem muita emoção, em conjunto, de maneira quase robótica, como se simplesmente estivessem tomando um copo d’água para matar a sede antes de voltar a algo mais desafiador. E Ritchie não floreia, monta essas sequências com essa mesma rigidez, de forma limpa, direta e constante. É uma decupagem que se mantém restrito ao mínimo necessário para mostrar o que deseja. É praticamente inexistente o interesse de afetar o espectador em seu corpo, como é comum no gênero.

Esse mesmo controle aparece nos personagens, todos arquétipos recorrentes (o latino mafioso que detém uma ilha e lá tudo controla, os bilionários sujos que trairão os protagonistas, e o grupo principal que monta seus planos visando todas as possibilidades para sempre estarem a par de qualquer mínimo detalhe que possa dar errado), no roteiro, na progressão da narrativa etc. É como se o trio principal e seus associados fossem tão implacáveis que isso os tornassem incapazes de serem surpreendidos ou sofrerem reveses (que são mínimos aqui e imediatamente contornáveis). Até há uma graça nas interações entre eles e o longa é divertido o suficiente, mas nem de perto há aquela pulsão caótica, que RItchie perdeu há muito tempo.

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