|Crítica| 'Maldição da Múmia' (2026) - Dir. Lee Cronin
Crítica por Victor Russo.
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'Maldiçõ da Múmia' / Warner Bros.
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Lee Cronin devolve a múmia ao horror enquanto sequestra a fórmula do gênero no mainstream e a exibe sob seus interesses de um surto pela imagem bela e macabra
Depois do ótimo A Morte do Demônio: A Ascensão, Lee Cronin retorna com mais um longa que busca dar a uma grande franquia o lugar que ela merece, mas sem nunca perder de vista a maneira como pensa o terror e as referências que lhe são caras. Ambos os filmes vão se conversar quase que por completo, partem de uma expectativa e de uma premissa que sugere muito o terror mais mainstream que estamos cansados de ver, com seus vícios de trama e mesmo a forma como cria sustos. Só que isso é apenas um véu que Cronin vai rompendo, seu interesse está de fato no grotesco, no exagero, na imagem como catalisadora das sensações mais desprezíveis e belas, na ânsia de gerar desconforto e fascínio no espectador.
Da mesma forma, Maldição da Múmia volta à noção espacial do longa anterior do cineasta, de pegar uma maldição ou uma entidade milenar em um lugar distante e trazer para um horror localizado, dentro de uma casa. A deterioração da família por dentro, a partir das crianças, mas se espalhando para os adultos, em que Cronin consegue extrair símbolos muito poderosos das imagens, da deterioração física da garota, tendo seu corpo se desfazendo, ao abraço do pai para protegê-la e se entregar em seu lugar.
Só que a essa lógica espacial e narrativa Cronin agora insere um prazer pela investigação, justamente os momentos em que o filme sugere a presença do mal, mas não precisa apelar para os elementos mais gráficos. O terror está na própria descoberta. Ainda que intrínseco ao gênero, essa busca pela conhecer o mal e suas formas milenares tem sido cada vez mais adormecida no terror, sobretudo hollywoodiano, sendo Maligno, de James Wan (que é produtor de Maldição da Múmia), um dos últimos a depositar um grande investimento narrativo nesse segmento.
Isso faz com que o filme fique um pouco mais inchado, o que pode ser sentido pelo espectador, mas que faz todo sentido dentro da construção de Cronin e busca por surtar a partir de suas referências. Se por um lado o cineasta dá o direito da múmia voltar a ser um universo de terror, o que lhe foi tirado desde o longa de 1999 e passou a ser encarado como um mundo de aventura e ação a partir de então, por outro, a mitologia da múmia é um ponto de partida, mas não uma definição da obra. Cronin tem em O Exorcista sua grande referência narrativa, tenta recriá-lo, sem nunca desmerecer a múmia, que é sempre o objeto de estudo aqui, só que o faz a partir de sua ode ao exagero, referenciando esteticamente Brian De Palma, sobretudo pelo excesso de split diopter, e todo o cinema maneirista dos anos 80 e 90.
Cronin, entre uma base inicial mais convencional e um apanhado de referências estéticas e narrativas mais evidentes, procura acima de construir uma mise en scéne bem própria, pelo excesso, pela destruição da homenagem em um surto completo da imagem. Mais do que apenas um gore indiscriminado, Cronin demonstra uma habilidade em pensar cada quadro e a sensação gerada por ele, sempre em uma imagem dicotômica entre o horror e o belo. Há um prazer não só pelo gênero, mas uma capacidade de se fascinar com o grotesco, em um ritmo sempre crescente dos acontecimentos, uma espiral que não tem medo do macabro, que se delicia com o exagero. É justamente aí que reconstrói suas referências e, no fundo, rejeita o nojinho estético do terror mais tradicional. É um filme que usa de um aparato industrial e da capacidade de atingir um grande público por meio deste, para, no fundo, chocar as expectativas do espectador de terror atual, quase sempre se dividindo entre o pólo do terror mais genérico de Blumhouse e semelhantes, e aqueles que se dizem fãs do terror dramático, quase sempre com um ar de superioridade meio tosco e controlado.


