|Crítica| 'Devoradores de Estrelas' (2026) - Dir. Phil Lord e Chris Miller
Crítica por Victor Russo.
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'Devoradores de Estrelas' / Sony Pictures
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Enquanto Ryan Gosling é o propulsor da comédia espacial, Chris Miller, Phil Lord e Greig Fraser fazem de cada imagem uma descoberta a ser registrada com fascínio
Apesar de terem seus nomes sempre sendo citados em projetos cinematográficos, com envolvimento como produtor, roteirista ou criador de franquias, filmes e séries, Chris Miller e Phil Lord retornam à direção de filmes após mais de uma década. Pode parecer absurdo, mas o último longa da dupla foi Anjos da Lei 2, em 2014, e Devoradores de Estrelas é apenas a quinta obra dirigida por eles para a telona. Com filmografia voltada para a comédia e com grande interesse no cinema em si e nas possibilidades expressivas da animação, Devoradores de Estrelas é quase uma consequência natural da carreira deles, possibilitada e bem-sucedida graças, também, ao grande talento da equipe responsável pela obra.
Adaptação de um livro escrito por Andy Weir (com carreira voltada para a ficção científica e responsável pelo já adaptado para o cinema Perdido em Marte), Devoradores de Estrelas também vai contar com um protagonista único, solitário no espaço (premissa mais recorrente para a ficção científica espacial), tentando se virar para sobreviver e realizar sua missão de forma um tanto mirabolante, ao mesmo tempo em que o tom é dominado por um certo otimismo melancólico e engraçado simultaneamente. A partir dessa base, o talentoso e conhecedor de gêneros e de como lidar com estruturas solidificadas no cinema, Drew Goddard estabelece uma narrativa em dois tempos, fazendo dos flashbacks uma possibilidade de revelação sobre esse protagonista, enquanto o tempo presente concebe o protagonista como alguém que vai determinar o seu eu perante o público, tornando-nos cúmplices de um desconhecido. É como se Goddard, reconhecendo essas possibilidades de, enquanto tenta fazer rir e chorar, construir uma dinâmica de descoberta constante, já entendesse as possibilidades da imagem que seria posteriormente pensada por Miller, Lord e o diretor de fotografia Greig Fraser, extremamente familiar com o IMAX e os grandes blockbusters.
Se Ryan Gosling parece a escolha perfeita para viver esse homem solitário, mas capaz de criar uma relação com um ser estranho e se divertir (e nos divertir) no processo, com um timing meio inesperado e um tanto irônico para as situações mais bobas que o roteiro pode propor de forma genuína, o filme só percebe a possibilidade no humor quando atrelada à descoberta, nessa constante relação com o desconhecido. É justamente essa percepção da exploração e do fascínio que move o longa, não só na relação entre Ryland (Gosling) e Rocky ou na tentativa em desvendar a solução para o problema comum que eles precisam resolver, mas principalmente em como Lord e Miller fazem de toda a mise en scéne uma eterna busca por revelar novas imagens.
Nesse sentido, a dupla e Fraser fazem um dos melhores usos recentes do IMAX, não utilizando o formato apenas como exploração de escala (visual e sonora, presente também na forma como é exibido), mas reconhecem na transposição para película a possibilidade de uma imagem mais vívida, artesanal, capaz de explorar cores nesse desconhecido tanto quanto a força dramática do escuro. Não só isso, a imagem em Devoradores de Estrelas é metalinguística e autoconsciente, sente o peso de um gênero (ou gêneros, já que a ficção científica aqui existe para a comédia e o melodrama e vice-versa) duradouro, cheio de batidas recorrentes. Ou seja, não é tanto sobre o que acontece, mas como isso se revela em tela.
Ryland precisa, então, se utilizar de uma câmera para comprovar o que ele está testemunhando, ao mesmo tempo que isso serve para provar para si mesmo que tudo aquilo é verdade. A imagem como declaração da verdade. Mas essa imagem é também o potencial dramático da descoberta e da desconfiança, o que é ainda mais fortalecido pela diferença entre o presente e os flashbacks. Só o momento no espaço é visto preenchendo todo o quadro e com uma capacidade real de deslumbramento pelo que está em tela, fazendo o passado soar quase protocolar.
Mas o espaço é também dúvida e ânsia por desvendar os perigos, algo bastante presente já na primeira ida de Ryland à janela da nave, para assim se deparar, em seguida, com um grande mundo vazio diante de si. É também em como Lord e Miller se utilizam da gravidade para descentralizar o protagonista no plano, nos confundindo e tornando fluido aquela movimentação não-natural. Ou no uso de espelhos, reflexos, e, sobretudo, do escuro, da nave de Rocky, vista de longe, depois de perto, o adentrar no desconhecido, criado com dedicação, buscando o reconhecível no inesperado, sem nunca soar básico. Pelo contrário, todo o design de produção e as regrinhas que o filme cria dá uma certa sensação de novidade para uma base tão comum.
Enquanto Ryland conhece Rocky, aprende a se comunicar com ele, descobre como usar a própria nave e os recursos nela presentes, Miller e Lord parecem se fascinar com a própria busca constante por desvendar cada imagem, cada novo plano, cada desconhecido que vai se tornando mais e mais agradável. A longa sequência do primeiro contato entre Ryland e Rocky, iniciada com um tom de terror para depois ir se desarmando e se apaixonando passo a passo dessa comunicação, é síntese de tudo que o filme faz de melhor e de todo o amor ali empregado por todos os envolvidos nesse projeto.


