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|Crítica| 'Living the Land' (2026) - Dir. Huo Meng

|Crítica| 'Living the Land' (2026) - Dir. Huo Meng

Crítica por Victor Russo.

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'Living the Land' / Autoral Filmes

 

Título Original: Living the Land (China)
Ano: 2026
Diretor: Huo Meng
Elenco: Wang Shang, Zhang Chuwen, Zhang Yanrong, Zhang Caixia e Cao Lingzhi.
Duração: 132 min.
Nota: 3,5/5,0
 

Huo Meng constrói um país em transformação e escancara suas contradições a partir de um olhar doce do espaço, inocente para as mudanças e com aspecto de filme de outra época

À primeira vista, Living The Land é mais um entre tantos outros filmes de rememoração de uma infância, um certo prazer comum à muitos diretores de revelarem sobre si mesmo e reencenarem o mundo que ficou com eles sobre sua fase de desenvolvimento. Claro que, grandes cineastas sempre estão se revelando para o público pelo o cinema, muitos pelas suas escolhas estéticas, outros com longas carreiras que fazem cada filme se sentir parte de toda uma filmografia ao qual pertence e cria diálogos mais ou menos silenciosos. Outros, de forma mais direta, e muitas vezes menos rica, ao propor já em sua premissa essa ideia do filme de infância, dando uma certa importância àquilo que o marcou e viveu, mesmo que quase sempre não haja grandes feitos ou um real interesse cinematográfico nesse olhar para o passado.

É nesse último cenário que Huo Meng instala Living The Land, mas não sem pensar em seu passado e na criança que foi como ponto de vista inocente e histórico para um espaço em transformação sociocultural. É um filma de infância muito mais maduro do que a média. Inclusive, é bastante comum no cinema asiático, sobretudo em países que passaram por modificações substanciais nas últimas décadas e fizeram parte do que hoje é uma das regiões mais ricas e tecnológicas do globo, a percepção do cinema como documento histórico para revelar essa mudança acentuada e rápida que afeta o modo de viver e as tradições ali enraizadas há tantos séculos. 

Assim, é interessante perceber Living The Land em comparação ao recente Levados Pelas Marés, de Jia Zhangke. Se Huo pensa a China a partir de um microcosmo que viveu, Jia, com carreira muito mais extensa, reflete essas mudanças por seu próprio cinema, ressaltando ainda mais essa noção da arte como processo histórico, que nesse caso lhe permite viajar por décadas de imagens documentando um país saindo do posto de emergente para se transformar na maior potência econômica e um dos grandes pólos tecnológicos do mundo, redefinindo não só suas paisagens, mas a própria relação entre as pessoas e delas para com o capital.

Claro que, além da abordagem e das imagens utilizadas, o que difere as duas obras é também o tempo histórico que abordam. Enquanto Jia cria uma narrativa fluída de décadas, Huo, de uma forma complementar, fixa seu interesse apenas em alguns tantos dias de 1991, em uma comunidade rural isolada, tendo como foco a representação dele mesmo, o olhar de um garoto que mora com a avó, enquanto os pais foram ganhar a vida em um grande centro urbano e não puderam levar o menino por conta da política do filho único que vigorava no país na época e que, hoje, não só foi revogada como é sentido o reflexo negativo de uma população que envelheceu e não consegue se renovar.

Living The Land tem sua força justamente na construção de uma encenação que valoriza a inserção dos personagens naquele espaço-tempo específico, enquanto oscila entre pontos de vistas, mas, ao fixar o do garoto como central, carrega também uma inocência ao perceber as transformações daquele mundo, sem um didatismo e com bastante dúvida e insegurança. Se Chuang é o protagonista, a narrativa flui para muito além dele. Por meio de travellings lentos, Huo não só contempla aquela paisagem com belas imagens, como, principalmente, parece se permitir trafegar entre todas as figuras que compõem uma comunidade que valoriza a tradição, vê o estado como um risco, mesmo quando precisam de algum tipo de ajuda deste, como na realização de um parto ou o registro de uma mulher de mais de 90 anos que não era, perante esse aparato estatal, reconhecida como uma pessoa, além de serem afetados, sem muitas respostas, por uma radicalização tecnológica que os impede de simplesmente existirem ali como sempre foram.

Fica claro que o cineasta chinês olha para o passado e percebe suas contradições, enquanto reflete a partir de referências bastante substanciais. Muito tem aqui de nomes do cinema de fluxo, sobretudo Abbas Kiarostami, ao lidar com o social a partir dessa câmera quase isenta de estilização, filmando acontecimentos sem que eles isolados representem uma maior atenção pelo longa, mas apenas uma composição banal, mas não desprovida de sentido. Até mesmo a imagem, sua busca primordial pelo espaço, mas também a textura, as cores e os movimentos suaves, remetem bastante a esse grande cineasta da década de 1990, sem nunca perder uma certa autenticidade de alguém que percebe o cinema como um documento histórico, mas não resume esse apenas a querer dizer algo. O cinema do tempo e do espaço, dos grandes planos para o olhar do espectador, do cuidado com os personagens que simplesmente existem frente a uma câmera invisível,

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