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|Colunas| Coluna Coágulo #016 - Por Tati Regis: 'Por que o terror faz a gente se importar?'

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Tati Regis escreve mensalmente sobre o cinema de horror na Coluna Coágulo.

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Por que o terror faz a gente se importar?

Por Tati Regis.

Esses dias eu estava assistindo aos cineclubes do Ponto MIS-SP com o Carlos Primati, em uma sessão dedicada ao A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e, em meio ao papo, ele solta uma frase simples, quase jogada, mas que ficou martelando na minha cabeça: “O terror faz a gente ter empatia pelos personagens e torcer por eles”. Parece óbvio, mas não é. Porque, à primeira vista, o terror parece o gênero menos interessado em empatia, é onde vemos pessoas sofrendo, sendo perseguidas, encurraladas, machucadas, mortas e, mesmo assim, ou talvez justamente por isso, é ali que a humanidade aparece com mais força.

Quando acompanhamos alguém cercado por zumbis, um grupo preso em uma casa isolada ou uma mulher que sente que algo muito errado vai acontecer, a identificação acontece quase de imediato. É aí que o medo aproxima, porque o perigo é compartilhado. No filme de George Romero isso fica muito claro. Torcemos por Ben, vivido por Duane Jones, não apenas porque ele parece mais racional ou assume uma posição de liderança, mas porque o filme o empurra para um tipo de horror que vai além dos mortos que andam. O verdadeiro confronto está nas relações humanas, na desconfiança, no ego e na violência que surgem entre os sobreviventes. Quando o desfecho chega daquele jeito seco e brutal, a empatia se transforma em indignação. Não é um final pensado para confortar o espectador, mas para ferir. O terror ali quer deixar um incômodo que permanece, que funciona como espelho de uma sociedade que já estava apodrecida muito antes de qualquer apocalipse.

Talvez seja por isso que o gênero funcione tão bem quando se ancora em sentimentos básicos, no simples que funciona, no menos que é mais. O medo só funciona quando a gente se importa. O Exorcista (1973), por exemplo, não é devastador apenas pela possessão, mas pela insistência de uma mãe que se recusa a desistir da filha. O Babadook (2014) transforma o luto em algo que ocupa a casa, o corpo e o cotidiano. Relic (2020) vai ainda mais fundo ao usar o horror para falar do envelhecimento, da perda de memória e do medo de ver alguém que amamos desaparecer aos poucos, mesmo estando ali. Já em Possession (1981), o terror surge da implosão emocional de um relacionamento, do descontrole, do excesso, de sentimentos que não encontram mais forma humana de existir. O monstro vem depois e o que nos prende é essa camada emocional que vibra por baixo do horror.

Barbara Creed fala disso em The Monstrous-Feminine, quando observa como o cinema de horror constrói figuras que atraem e repelem ao mesmo tempo. O monstruoso não é algo totalmente distante, ele está colado em medos íntimos, em experiências do corpo, da maternidade, da perda. Não é uma empatia confortável, mas é empatia ainda assim. A gente reconhece algo ali, mesmo que não queira.

Mas o terror também gosta de nos empurrar para lugares moralmente estranhos. Em muitos slashers, chega um momento em que torcer pelas vítimas se torna difícil. Os personagens são rasos, irritantes, às vezes arrogantes demais para despertar qualquer afeto. Quando a arma do assassino surge, seja uma faca, uma furadeira ou qualquer outro instrumento de morte, aparece uma espécie de catarse silenciosa. Não porque desejamos o mal, mas porque aquela violência parece cumprir uma função. Existe um prazer meio culpado nessa punição encenada. O horror, então, vira um ajuste simbólico, uma vingança que o espectador aceita sem precisar se explicar.

Em outros casos, o problema é que o vilão simplesmente domina a cena. Freddy Krueger, Hannibal Lecter, Drácula, por exemplo, são mais interessantes, mais vivos, mais magnéticos do que quem deveria enfrentá-los. O terror permite esse espaço ambíguo, onde a empatia muda de lugar e o mal ganha carisma. Creed aponta como essas figuras monstruosas muitas vezes carregam desejos reprimidos, aquilo que a cultura tenta empurrar para fora. Talvez por isso seja tão difícil rejeitá-las por completo. O gênero parece mostrar que isso também é humano.

E aí para concluir, o terror revela o quanto somos contraditórios. A gente torce por quem tenta sobreviver, mas também se encanta com quem ameaça. Se envolve com a dor, mas ri da desgraça. O medo é só a camada mais visível. Por baixo dele estão o afeto, o ódio, a curiosidade, o prazer, a culpa. Quando o terror é bom, ele não se contenta somente em assustar, mas também a forçar um encontro desconfortável com aquilo que somos, mesmo quando, por algumas horas, a gente opte fingir que não é bem assim. 

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