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|Crítica| 'O Beijo da Mulher Aranha' (2026) - Dir. Bill Condon

|Crítica| 'O Beijo da Mulher Aranha' (2026) - Dir. Bill Condon

Crítica por Victor Russo.

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'O Beijo da Mulher Aranha' / Paris Filmes

 

Título Original: Kiss of the Spider Woman (EUA)
Ano: 2026
Diretor: Bill Condon
Elenco: Jennifer Lopez, Diego Luna, Tonatiuh, Bruno Bichir e Josefina Scaglione.
Duração: 128 min.
Nota: 2,0/5,0
 

Fora de época e sempre na defensiva, Bill Condon fetichiza as ditaduras na América Latina a fim de construir um pastiche autoexplicativo dos musicais da Hollywood Clássica

A comparação com o filme de 1985, dirigido por Hector Babenco, parece o caminho mais natural para o espectador interessado em cinema. Menos um marco e mais um evento para o cinema brasileiro, a primeira adaptação cinematográfica do livro de mesmo nome era uma co-produção Hollywoodiana, falada em inglês, indicada a diversos oscars e com a honraria de melhor ator no evento para o consagrado William Hurt, mas capaz de lidar com o peso político daquela década e das anteriores, o impacto da influência americana nas ditaduras militares na América Latina e o resultado naqueles que lutavam contra os regimes ou simplesmente não eram aceitos por eles. Babenco tinha consciência do peso daqueles acontecimentos, não fazia do subtexto de fuga a um momento presente cruel uma mera desculpa para uma realidade escapista. Compreendia nesse lugar a única possibilidade dos personagens viverem, mesmo que o presente sempre estivesse batendo a porta.

Limitar o debate a quem pode ou não fazer os filmes, ou o termo “lugar de fala”, que perdeu o sentido logo nos seus primeiros anos de uso, não representaria o todo na relação do original, do livro e desse remake. O próprio Martin Scorsese e o seu excelente Os Assassinos da Lua das Flores estão aí para provar que todos podem contar todas as histórias, basta saber como fazê-lo. Não se trata então de Babenco ter nascido na Argentina e feito carreira no Brasil também em período de ditadura, nem de Bill Condon ser americano, mas sim da incapacidade do segundo de reconhecer a importância histórica dos eventos para além de textos deslocados no início e no final, que nada conversam com toda a proposta e execução da obra. 

Poderíamos questionar o fato de fazerem um musical de uma obra tão cruel já na década de 1990, mas não precisamos ir tão longe, fiquemos apenas com o longa de 2026 e com algumas sutis menções ao filme de 1985. Claro que o tempo histórico se faz como elemento fundamental nesse sentido. Apesar de ambos serem filmes hollywoodianos e falados em inglês, a obra de Babenco falava sobre as ditaduras latino-americanas enquanto elas ainda estavam em curso, enquanto Condon tem o trabalho de reviver esses momentos quatro décadas depois, o que poderia nem ser tão complicado assim se esse fosse o real interesse (Ainda Estou Aqui é uma prova disso).

O problema é que em meio a alguns ferimentos de tortura, um falar ameaçador dos guardas e o personagem envenado se cagando (uma das cenas mais desconfortáveis do ano, de tão mal executada que é), Condon pouco se importa de fato com o período histórico, não está nem aí para a Argentina ou para o Brasil, o que aconteceu é apenas uma desculpa. Sua atenção está para o filme dentro do filme, a imaginação escapista que o longa faz questão de repetir até que o subtexto deixe de ser subtexto rapidamente. Condon idealiza fazer a sua versão de um musical clássico hollywoodiano, espalhafatoso, cheio de cores, danças coreografadas e com diversos personagens em cena, além de uma dose de artificialidade para evidenciar o fato daqueles filmes serem feitos em estúdios (as cenas da floresta reforçam isso). Ademais, Condon caracteriza Jennifer Lopez como sua Marilyn Monroe latina, faz questão mais uma vez de reforçar a ideia em texto, com um personagem verbalizando que Hollywood não conseguiu fazê-la deixar de ser latina (ainda que essa palavra, para Condon, signifique apenas ser sexy e desejada).

Se é habilidoso em encenar cenas musicais, e todo o elenco faz um trabalho bom o suficiente nesse sentido, fica claro que o diretor não planeja fazer nada para além de uma homenagem, ele tenta replicar com gosto e ainda se defende para qualquer acusação de que o filme é um mero pastiche. De novo, o personagem (Tonatiuh) verbaliza uma ideia de Condon, ao dizer que a história do filme dentro do filme se passa em algum lugar fictício da América Latina, mas é o puro escapismo hollywoodiano. E vai além, com Arregui (Diego Luna) questionando a história, dizendo que ela é genérica e previsível. 

Dessa forma, Condon aciona uma característica muito recorrente do cinema atual, em período de redes sociais, o filme que sente uma necessidade de se defender de todos os possíveis ataques adicionando linhas de diálogos que provariam a autoconsciência desses “problemas”, e, com isso, supostamente deixaram de ser questões a se debater. O Beijo da Mulher-Aranha (2026) reconhece ser um filme hollywoodiano escapista, com um filme dentro do filme super genérico que só pretende reverenciar o musical clássico dessa indústria. Como sempre, o limite é o reconhecimento, nunca a pretensão de fazer algo para a criação de uma nova percepção e discussão à respeito. É como se Condon tivesse feito uma grande besteira, como fazer cocô nas calças (só para pegar um exemplo do filme), mas, ao invés de se limpar ou tomar atitudes para que aquilo não se repita, ele prefere continuar sujo e gritar para o mundo que está todo cagado.

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