|Crítica| 'Blue Moon' (2025) - Dir. Richard Linklater
Crítica por Victor Russo.
![]() |
|
'Blue Moon' / Sony Pictures
|
Richard Linklater transforma cinebiografia em uma noite no bar, com Ethan Hawke conduzindo a performance desse homem pequeno no palco da vida
Pouco habitual em sua carreira, 2025 marca um retorno meio nostálgico de Richard Linklater a figuras do passado, a fim de encená-las por suas próprias regras. Blue Moon foi o primeiro de dois projetos, exibido no Festival de Berlim e seguido por Nouvelle Vague, que estreou na competição em Cannes. O curioso é como o cineasta olha para Lorenz Hart (Ethan Hawke), famoso compositor estadunidense dos anos 1930 e 40, que tem como música mais famosa a que dá título ao filme, exibindo primeiro sua morte, sozinho em um beco pouco iluminado, para, em seguida, relembrar a sua vida.
Entretanto, se muitos reclamam (em grande medida, com razão) da fórmula da cinebiografia, o acompanhar de uma vida inteira passando rapidamente apenas por momentos marcantes espalhados por muitas décadas, Linklater tem em uma noite em um bar, frequentado por artistas e de vida boêmia, com iluminação baixa e amarelada, que dá um certo calor para o espaço e o isola do mundo ao seu redor, a representação de toda uma vida, a partir de breves interações, muitos monólogos e uma variação constante desse protagonista tão solitário quanto performático.
As obras de sua carreira, sua percepção artística, a mulher (Margaret Qualley) que ama platonicamente e idealiza, suas frustrações e ciúmes (que também giram em torno de sua arte e do amor não correspondido), e toda uma variação que vai da arrogância e euforia, até uma destruição solitária que apequena este homem, são interesses para uma encenação quase teatral da obra.
Do trabalho de câmera o que mais se destaca é como Linklater impõe um certo peso nesse personagem, filmando-o da metade para baixo no plano, mesmo em enquadramentos mais fechados, sugerindo o seu tamanho apequenado, ainda que seu discurso contenha uma arrogância que monopoliza toda a conversa. Posteriormente, passaremos a vê-lo não mais sozinho, mas em comparação àqueles que representam suas maiores paixões e frustrações, que servirão para dar uma dimensão de sua pequeneza, às vezes mais natural, em outros momentos acentuada por um truque de câmera que o faz parecer ainda menor.
Entretanto, é inegável como, apesar de alguns truques de enquadramentos e de uma narrativa que desconstrói a performance para mostrar aquele artista em seu mais íntimo, em certo momento literalmente em um quartinho com porta fechada, Blue Moon tem em sua subversão da trama cinebiográfica tradicional um caminhar rumo ao palco de teatro. Hawke é posto nessa posição de quem precisa cativar uma plateia, comandar o show, de preferência, de uma forma espalhafatosa, como se quisesse atingir até aquele espectador na última fileira do balcão, a muitos metros de distância do palco. Não que não haja uma variação em sua atuação, ele transita entre emoções, consegue dar um caráter mais íntimo as derrotas pessoais do personagem, inclusive acentuando os momentos em que se coloca em um ambiente mais performático, ao início e ao final, a construção de uma persona que tenta esconder os seus rancores e, principalmente, a solidão que o domina.
Só que nessa tentativa de criar uma espécie de vida-síntese em um mesmo espaço, Linklater impõe ao longa uma necessidade constante de se explicar, de revelar figuras marcantes na vida do protagonista, como o parceiro Richard Rodgers (Andrew Scott), que acabou por ficar bem mais famoso que Hart, em parte por conta de Oklahoma!, que o filme faz questão de revelar o ciúme do protagonista nas constantes tentativas de desqualificar a obra, e declamar praticamente todos os sentimentos e pensamentos de Hart, mesmo quando eles querem dizer outra coisa.
Essa dramaturgia quase exclusivamente dependente de texto e atuação, comumente decupada a partir da apresentação de um espaço maior, para, em seguida, fechar em diálogos em plano e contraplano, ou, mais ainda, a luz que fica direcionada para Hawke com longos monólogos, em um texto que se repete sem parar, não permita uma fluidez da obra. Há uma sensação menos cinematográfica em Blue Moon, assemelhando-se um tanto a filmes que adaptam as peças de teatro de Albert Wilson, uma tendência recente de longas pensados para o Oscar. A fuga da narrativa tradicional vem então com o custo, de um filme que quase sempre não parece ter sido pensado para a câmera e sim para uma recepção do público in loco.


