Português (Brasil)

|Crítica| 'Morra, Amor' (2025) - Dir. Lynne Ramsay

|Crítica| 'Morra, Amor' (2025) - Dir. Lynne Ramsay

Crítica por Victor Russo.

Compartilhe este conteúdo:

'Morra, Amor' / MUBI e Paris Filmes

 

Título Original: Die My Love (EUA)
Ano: 2025
Diretora: Lynne Ramsay
Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattison, Sissy Spacek, LaKeith Stanfield, Nick Nolte e Gabrielle Rose.
Duração: 119 min.
Nota: 3,0/5,0
 

Lynne Ramsay mira menos no filme de depressão pós-parto e mais no exercício estilístico caótico de sua protagonista, com claras referências a 'Uma Mulher Sob Influência'

Com início bastante temporalmente fragmentado (a montagem nunca abandona de fato essa estrutura) e com um tom mais contemplativo pela imagem e som, Morra, Amor pode ser facilmente interpretado em seu começo como mais um longa a abordar a depressão pós-parto a partir de uma mulher se destruindo emocionalmente, enquanto o seu parceiro nunca está lá para ajudá-la ou mesmo satisfazer os seus desejos. Ao mesmo tempo, essa maneira de fotografar, pelos quadros isolados, em contra-luz, com uso constante da luz natural entrando por frestas nos espaços escuros daquela casa ou mesmo no horizonte do final de tarde, em muito se assemelha a uma estética bastante batida do cinema independente americano/britânico, que moldou toda uma geração de cineastas. 

Porém, aos poucos, Lynne Ramsay vai revelando a partir das ações de Grace e do corpo de Jennifer Lawrence qual é o real filme aqui. O parto ou o filho pequeno não é ponto de partida, como era sugerido, não se trata exatamente de um filme sobre depressão pós-parto. A dissolução de um tempo perceptível, com fragmentos de passado, presente e futuro se misturando, manifesta, na verdade, uma certa ruptura dessa mulher pelo tempo. O dar a luz não é um demarcador, talvez nem mesmo a ida para aquela casa isolada que faz de Grace alguém ainda mais solitária e desprendida do mundo. 

Tal qual Uma Mulher Sob Influência, referência mais clara para o longa, Grace é meio que o filme em si. Aos poucos vai ficando mais claro que toda a concepção estética do filme parte justamente da personagem, seu caos interno prestes a explodir, seus devaneios, desejos não saciados e, claro, o peso da maternidade. Só que, diferente do recente Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, preso a opressão da ansiedade e claustrofobia constante da câmera como única forma de comunicar o seu tema mais caro que o filme em si, Ramsay dá uma certa liberdade narrativa e estética a essa personagem tão fluída, não demarca, nem restringe as possibilidades expressivas em torno dela. Como Grace, o longa parece perdido, se movimentando sem rumo, acalmando-se e se desesperando na mesma medida. O roteiro, algo bastante secundário, funciona sob essa dinâmica de repetição, como uma panela de pressão que constantemente explode para em seguida ter que ser religada.

Inclusive, Lawrence interpreta muito melhor essa perda de controle do que Rose Byrne. Não teme o exagero (o filme de forma geral não tem esse medo, é hiperbólico o tempo todo), não tenta controlá-lo para soar mais palatável (e, consequentemente, artificial e forçado). A atriz meio que se deixa levar pela personagem, em certos momentos, parece até se divertir com as tantas possibilidades de Grace agir, pensar, gritar, tirar a roupa, correr sem rumo e se desesperar. Quem já viu meia dúzia de entrevistas da atriz percebe facilmente o quanto, além de divertidíssima, Lawrence é meio dotada desse certo caos hiperativo e, muitas vezes, bastante irônico. Vale também mencionar mais um grande trabalho de Robert Pattinson, tão forte em sua presença quanto em sua ausência, a ambiguidade entre sanidade, controle e manipulação, a dificuldade de interpretá-lo.

Em nenhum momento, inclusive, Ramsay de fato julga esses personagens. Sua intenção é muito mais expressiva do que temática, não pretende criar a cartilha da sanidade mental, nem um apontar de dedos sobre a masculinidade tóxica e ausência matrimonial. Os personagens, ao final, apenas existem e vão agindo, com uma certa naturalidade, mesmo que constantemente fragmentados pela determinação temporal inconstante e pelo olhar central da câmera que sempre busca Grace. Se não fossem os primeiros trinta ou quarenta minutos, puramente monótonos, contemplativos e meio desprovidos de emoção, Morra, Amor seria uma experiência ainda mais completa, interessada muito mais nas sensações que o cinema pode provocar do que nos discursos prontos de redes sociais.

Compartilhe este conteúdo: