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|Crítica Mostra 2025| 'Cover-Up' (2025) - Dir. Laura Poitras e Mark Obenhaus

|Crítica Mostra 2025| 'Cover-Up' (2025) - Dir. Laura Poitras e Mark Obenhaus

Crítica por Raissa Ferreira.

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'Cover-Up' / Mostra SP

 

Título Original: Cover-Up (EUA)
Ano: 2025
Diretores: Laura Poitras e Mark Obenhaus
Elenco: Seymour Hersh
Duração: 117 min.
Nota: 3,0/5,0
 

Documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus é registro da história dos escândalos políticos estadunidenses, a partir da carreira de uma das lendas do jornalismo investigativo

Contar a história de Seymour Hersh é, para Laura Poitras e Mark Obenhaus, também uma maneira de contar uma história sobre os Estados Unidos e, mais do que isso, sobre o jornalismo estadunidense. Passando pelos grandes marcos na carreira do lendário jornalista investigativo, uma palavra é repetida inúmeras vezes: encobertamento. A tradução direta do título do documentário é dita por vozes no presente e passado, todas se referindo a casos investigados por Sy e que levaram a público diversos escândalos do governo dos EUA. Por décadas, horrores escondidos foram estampados em capas de jornais com a mesma assinatura, tornando o profissional um alvo político, e também um contato seguro para as fontes depositarem suas informações. Ao longo de quase duas horas, os cineastas permitem que o próprio Hersh conte sua trajetória, inserindo muitas imagens de arquivo e poucos depoimentos, lançando uma pilha de fatos conturbados em um momento crucial para a expressão na dita terra da liberdade.

Não é o caso mais marcante de Sy que abre Cover-Up, mas um bem chocante que já instiga quem assiste. A história vem antes do jornalista, como faz muito sentido ser. Só após essa introdução é que se vê em tela Hersh no presente, conversando com a equipe de produção sobre confiança e o processo do filme. Fica claro que para o homem não é totalmente confortável se abrir sobre seu trabalho, estabelecendo principalmente muito bem os limites sobre suas fontes, um dos fatores mais relevantes na ética jornalística. Sem essas pessoas anônimas, Sy não seria o ícone que é. Percorrendo os escândalos que ele investigou, percebe-se como após a revelação do massacre de My Lai durante a Guerra do Vietnã, tanto ele corria atrás das histórias, quanto elas davam um jeito de o encontrar.

Ao mesmo tempo em que a narrativa traça linearmente a carreira de Sy, existem paralelos ao tempo presente, em que uma fonte fala com ele ao telefone dando informações sobre o genocídio em Gaza, um trabalho ainda em progresso e que não está perto de ser publicado. As conversas revelam a confiança entre quem procura o jornalista e Hersh, uma via de mão dupla que ele pavimenta com muito esforço há anos. Essa relação é tão importante para o filme quanto montar uma história sobre os horrores cometidos pelos Estados Unidos, principalmente em outros países e em cenários de guerra, e como a atuação de profissionais como seu protagonista afetaram e mudaram o jogo. A temática é cara a Poitras, documentarista mais conhecida por seu longa sobre Edward Snowden, mas com um currículo recheado das problemáticas que atravessam politicamente seu país.

Cover-Up explora muito bem esse cenário da política estadunidense, sem perder o foco de seu personagem principal que guia a narrativa. Sy não está em frente às câmeras apenas para dizer como recebeu fotos que revelavam escândalos do exército dos EUA, mas também para partilhar sua vida e como o jornalismo acabou se tornando toda ela. O humano que existe atrás do profissional vaza para trazer sensibilidade ao documentário, demonstrando como Hersh, em sua sede cada vez maior pelo jornalismo investigativo e na constante confiança em suas fontes, acabou prejudicando sua carreira ao ser enganado, ou como mudou de plataforma diversas vezes para ser fiel a sua ética. 

Em dado momento, Sy parece encenar para as câmeras, com as vozes da equipe do filme interagindo com ele. O personagem principal demonstra ter atingido certo limite do que gostaria de partilhar e de tudo que a produção tem acesso. Poitras teria tentado há 20 anos iniciar um trabalho com Hersh mas só agora teve sucesso. Ainda assim, o jornalista revela incômodos. A cena soa forçada, fabricada para tornar tudo mais urgente, como se o material exibido em Cover-Up fosse um tesouro secreto, um risco para o homem e um amontoado de informações valiosíssimas para quem assiste. Não que isso não seja verdade, mas existe um exagero que vai na contramão da naturalidade esperada nessas conversas entre entrevistado, e objeto do filme, com aqueles que dirigem. A relação entre documentaristas e personagens requer um vínculo de tanta confiança quanto de jornalistas e fontes anônimas e, embora Sy demonstre dúvidas totalmente justificáveis nesse elo, pelo teor do que está apresentando, o momento se dá de maneira bastante artificial.

A partir dessa quebra que pede o encerramento do projeto, mas que não o termina de fato, há uma perda no documentário. Quando Cover-Up fala de My Lai, as imagens e informações embrulham o estômago, numa crescente angústia do que está sendo apresentado. Os casos vão seguindo uma ordem linear, escândalos políticos, torturas, interferências em outras nações e por aí vai, num fluxo ágil que prende a atenção sem tempo de respiro. Não é que o momento em que Sy se recusa a continuar é uma queda pela pausa em si, mas por uma ruptura no pacto de confiança com a própria audiência. A performance típica dos estadunidenses pode passar batida para alguns, mas é notável como o longa sofre com essa escolha, demorando um pouco para retomar o ritmo e se tornar interessante novamente com os casos do jornalista. 

Uma overdose bem-vinda aos amantes da profissão, Cover-Up tem a intensidade e a dinâmica típica dos bons filmes de jornalismo investigativo, contando com a vantagem de ter uma lenda viva à disposição e um momento propício para levantar os debates éticos e políticos nos Estados Unidos.

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