|Crítica| 'O Brilho do Diamante Secreto' (2025) - Dir. Hélène Cattet e Bruno Forzani
Crítica por Victor Russo.
![]() |
|
'O Brilho do Diamante Secreto' / Pandora Filmes
|
Hélène Cattet e Bruno Forzani miram o seu prazer pelo cinema de gênero no filme de espionagem, sem abandonar o giallo e tantas referências visualmente hiperbólicas e quadrinescas
Conhecidos pelas referências ao cinema e um amor aos filmes de gênero, a dupla Hélène Cattet e Bruno Forzani miram agora no filme de espionagem, com clara referência nos 007 protagonizados por Sean Connery. Yannick Renier, a versão jovem de John Diman, é caracterizado de forma semelhante ao espião mais famoso dos cinemas na década de 1960, reforçado pela ambientação (já que o filme ficará entre esse passado e um presente, em que Diman é vivido por Fabio Testi). Só que, muito mais do que apenas referenciar a franquia do James Bond, Cattet e Forzani pretendem provocar uma série de impulsos cinematográficos e sentimentos por meio de imagens ordenadas de forma pouco clássica e, por vezes, até inesperadas.
Se por um lado homenageia, por outro ironiza o gênero, mas, acima de tudo isso, O Brilho do Diamante Secreto traz um sentimento de extravagância, de exagero, remetendo em certos momentos ao Giallo (referência marcante para a dupla), e, principalmente, ao quadrinesco, às vezes até do desenho animado. Há uma recusa por uma narrativa mais clássica, de causas e consequências diretas, assim como de uma encenação que siga essa expectativa pelo plano seguinte. Às vezes aleatório, quase sempre confuso, há uma dominância pela imagem como sensação e significado dentro de si, o contar uma história é apenas premissa para essa série de planos e referências ganhando corpo e sendo esgarçadas como se espera de um bom filme maneirista. Não há apenas piscada para o que veio antes, mas uma genuína vontade de construir um cinema de tesão pela imagem, pela sensação única a cada novo fragmento de película.
Nem sempre há realmente uma unidade por trás de dessa narrativa de idas e vindas, de figuras bizarras e impossíveis, combinando travellings fluidos e longos a uma constante agressividade da montagem ao retornar ao passado, mudar o tom e usar e abusar dos super closes. Se esse sentimento meio vulgar e aleatório funciona bastante é justamente porque essa obsessão do protagonista em dois tempos importa menos do que as figuras e formas que cruzam o seu caminho, o real que vai se perdendo em meio ao absurdo, dos vilões e antagonistas caracterizados ao extremo, enquanto as imagens fluem por conta própria, como se uma música moldasse o seu rumo. Se a referência mais clara é 007, o longa em si parece mais uma das sequências musicais de abertura dos filmes dessa franquia, que jogam o personagem geralmente em um mundo um tanto psicodélico, de subeventos rápidos, coloridos e performáticos, constantemente repetindo formas, sendo o protagonista uma delas.
Essa fluidez antinatural, em última instância, é o resultado dessa transposição do quadrinesco para o cinematográfico, se utilizando do tempo, do som e do movimento do cinema, assim como da possibilidade de performar dos atores (que é explorado em uma metalinguagem dentro da própria obra, quando o real se transforma em uma representação de franquia multimídia da vida daquele espião obcecado e perdendo sua sanidade, confundindo ainda mais o espectador que busca uma história coerente), típicos dessa mídia audiovisual, ao mesmo tempo que a montagem estabelece essa relação de ruptura, como se cada plano não dependesse nem do anterior e nem do seguinte, sendo cada quadro único e representativo, algo natural àqueles que leem HQs, sempre escritas por um autor, mas desenhadas com traços característicos de um novo artista, que molda a história para desenhos dispostos sob uma nova perspectiva. Hélène Cattet e Bruno Forzani seguem essa estrutura visual em um campo não mais plano, e, sim, cinematográfica, ainda que conservando o sentimento geral para com os quadrinhos, em alguns momentos, de forma até mais explícita ao parar o mundo e rodear os personagens em uma espécie de espaço metafísico estilizado.


.webp?=2835202-2)