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|Crítica| 'Love' (2025) - Dir. Dag Johan Haugerud

|Crítica| 'Love' (2025) - Dir. Dag Johan Haugerud

Crítica por Raissa Ferreira.

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'Love' / Imovision

 

Título Original: Love (Noruega)
Ano: 2025
Diretor: Dag Johan Haugerud
Elenco: Andrea Braein Hovig, Tayo Cittadella, Thomas Gullestad, Lars Jacob Holm e Marte Engebrigtsen.
Duração: 119 min.
Nota: 3,5/5,0
 

Dag Johan Haugerud investiga, por meio dos diálogos, como sexo e amor fazem parte dos relacionamentos modernos

Os primeiros filmes da trilogia de Dag Johan Haugerud chegam juntos aos cinemas brasileiros, fazendo um paralelo curioso. Enquanto Dreams, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, e último filme da trinca, não estreia por aqui, Sex e Love já tiveram passagem pela Mostra de São Paulo, também juntos. Ambos ambientados e influenciados pela paisagem da Noruega, com uma iluminação bastante clara, praticamente sem sombras, seguem paralelamente os acontecimentos nas vidas de duas pessoas, ou dois amigos. Sex parte dos pensamentos de dois homens sobre suas sexualidades para desenrolar questões de gênero, relacionamentos, monogamia, e afins, e Love parte de uma mulher e um homem solteiros, em busca de expressar a liberdade de suas sexualidades, e assim chega em uma construção gradual ao redor do amor, companheirismo e as relações afetivas. 

Apesar do nome, Sex fala muito sobre o amor e Love é mais sobre o sexo até chegar ao que seu título de fato aponta. O que os dois filmes traçam em conjunto são as linhas em que o amor e o sexo se cruzam, e acabam caminhando juntos, e as outras em que eles não precisam se encontrar nem coexistir. Marianne (Andrea Bræin Hovig) é uma médica na faixa dos quarenta anos que já não tem grandes desejos de um relacionamento sério e duradouro, seu parceiro de trabalho, o enfermeiro Tor (Tayo Cittadella Jacobsen), tem quase como hobbie os passeios de balsa em que usa um aplicativo de relacionamentos para encontrar outros homens e conversar, flertar e quem sabe até transar, o que rolar está bom para ele. Enquanto a amiga de Marianne opera como uma agente da pressão social, a influenciando a conhecer um homem para namorar, Tor desperta nela um espírito mais aventureiro para explorar sua sexualidade de forma mais livre.

Dag Johan Haugerud conduz os dois filmes de forma bastante similar, mas Love parece mais consistente no que tem a dizer, ou talvez o amor e o sexo sejam mais interessantes juntos. Como profissionais da saúde que atendem homens com diagnósticos que não apenas são pesarosos em suas vidas, mas também comprometem suas atividades sexuais, a dupla protagonista é atravessada por esse ofício diário. Da mesma forma, Love segue Marianne e Tor paralelamente, mas quando os caminhos dos dois se cruzam sempre há um incentivo para que suas narrativas se tornem mais interessantes, principalmente partindo do enfermeiro, muito mais consciente e seguro de suas escolhas e desejos. 

Enquanto Marianne acha muito atrativo como Tor encontra parceiros na balsa, sua amiga a critica vastamente quando ouve seu relato de sexo casual. A liberdade que essa mulher procura exercer ainda encontra barreiras e julgamentos, principalmente de gênero, até mesmo do homem com quem se encontra e tem muitos pensamentos sobre a postura de mulheres solteiras e casadas. Assim, Dag Johan Haugerud pauta todas as suas ideias nas longas observações dos diálogos, permitindo que seus personagens coloquem preconceitos, emoções, expectativas, sentimentos e raciocínios, em falas abertas e honestas. Dessa forma, ninguém age como puramente sábio e moral ou terrivelmente sem noção, essas coisas se misturam, como costuma ser na vida real.

O sexo, tema do mais cômico Sex, se torna uma forma de Marianne explorar o que busca em relacionamentos, em um ensaio bem clichê da modernidade afetiva, paralelamente a Tor, que caminha no lado mais melodramático que Love carrega e se desvincula das aventuras casuais para entrar em um relacionamento em que o sexo não é parte do jogo e o foco fica na parceria, cuidado e companheirismo. Nessa mesma linha, a ex-esposa do novo interesse afetivo da médica entra como um elemento interessante, que também faz pensar sobre o casamento e como essas estruturas e normas sociais caminham ao lado dos sentimentos, ou os atravessam. Na verdade, os dois primeiros filmes dessa trilogia se conversam muito nesses temas, e seria impossível os reduzir à nomenclatura.

É claro que a atmosfera sempre muito iluminada e leve de um lugar em que as pessoas vivem rotinas tranquilas, com bons empregos, salários e condições de vida, se torna um tanto morosa, principalmente pela dinâmica do cineasta de concentrar-se em tudo que seus personagens querem dizer. Mas, no amor, ou em Love, há caminhos bem interessantes para desvendar do que são feitos os vínculos emocionais e de comprometimento, com ou sem sexo, entre duas pessoas. 

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