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|Crítica| 'Sex' (2025) - Dir. Dag Johan Haugerud

|Crítica| 'Sex' (2025) - Dir. Dag Johan Haugerud

Crítica por Victor Russo.

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'Sex' / Imovision

 

Título Original: Sex (Noruega)
Ano: 2025
Diretor: Dag Johan Haugerud
Elenco: Jan Gunnar Roise, Thorbjorn Harr, Siri Forberg, Birgitte Larsen e Anne Marie Ottersen.
Duração: 125 min.
Nota: 2,5/5,0
 

Dag Johan Haugerud mira em Ingmar Bergman, mas se resume a discussões com respostas prontas e um certo desinteresse por fazer cinema

Dentro da história do cinema há grandes pilares impossíveis de serem superados, mas que possibilitam serem revisados e expandidos a novas lógicas, seja por ironia, homenagem ou distorção. O caso mais claro e reproduzido é Alfred Hitchcock, que teve suas obras, sobretudo Psicose, Um Corpo Que Cai e Janela Indiscreta, servindo de ponto de partida para grandes filmes posteriores, na mão de outros excelentes diretores, como Brian De Palma, Paul Verhoeven, Christian Petzold, Agnès Varda, David Lynch, David Fincher, Krzysztof Kieslowski e David Robert Mitchell, além de um punhado de outros nomes menos talentosos que rapidamente caíram no esquecimento (alguém lembra de Paranoia, por exemplo? Acho bem difícil).

Se a influência de Hitchcock é dificilmente superada, um diretor que ameaça esse posto com impacto gigantesco na cinefilia é Ingmar Bergman, com seu cinema psicanalítico, de muitos diálogos, atuações muitas vezes expressivas e uma tentativa de desvendar a existência humana por meio de seus personagens em conflito, mas sempre deixando muita coisa sem resposta (não à toa, muitos de seus filmes, como Persona, Morangos Silvestres e O Sétimo Selo seguem gerando debates até hoje). Talvez, no cinema europeu e até mesmo no independente americano (como produções novaiorquinas fora dos grandes estúdios), o sueco seja até mais presente como fonte de inspiração do que o britânico que fez carreira nos Estados Unidos. Porém, a força em criar a partir de Bergman definitivamente não é a mesma, dando para contar nos dedos diretores que souberam criar a partir dessa influência, como Woody Allen, Michael Haneke (em alguns filmes, não todos) e Walter Hugo Khouri (influência menos direta na prática).

Sobram então uma porção gigante de obras que confundem a tentativa de desvendar quem somos, como agimos e sentimos e nosso envolvimento com o mundo que nos cerca com uma verborragia infinita de personagens se explicando como uma forma desses diretores criarem a tese e conclusão dela, deixando pouco espaço para reflexão do público em debates posteriores à obra. A era das redes sociais, com informação ilimitada e certezas inegociáveis sendo propagadas aos montes, boa parte desse cinema que visa uma percepção mais intelectual do ser humano e da sociedade se enfraqueceu, soando quase como fios no Twitter repletos de ideias nada originais que usam a imagem não como uma forma de narrar e dar potência e personalidade à obra, mas apenas como ilustração para esses debates prontos. Sobretudo o final de Sex, que adota um tom mais lúdico e fantasioso, parece Dag Johan Haugerud à força querendo soar menos restrito. Não é o que acontece na prática durante todo o longa.

A premissa parte de um lugar interessante, um homem casado com uma mulher que a trai com um desconhecido, enquanto outro homem, em relacionamento matrimonial idêntico, sonha constantemente que é uma mulher, e tudo se inicia com os dois amigos compartilhando os acontecimentos antes de levarem para suas esposas. Oportunidades surgem daí, sobretudo relacionadas à sexualidade deles, que continuam se enxergando como homens héteros, mas que passam a se questionar e, principalmente, serem indagados por suas mulheres. Tudo se transforma em uma espécie de DR infinita, sem a potência dramática de um Bergman, mas com uma frieza bastante comum à obras europeias, sobretudo escandinavas (como é o caso desse filme norueguês).

O sexo em questão nunca dá as caras, nem as vontades e os sentimentos, o objetivo de Haugerud é o de simplesmente colocar os personagens para falar e repetir as mesmas premissas, enquanto ensaia e depois responde boa parte dessas questões. Só que pouco impacto há nessa execução, tudo parece calculado, extremamente verborrágico, mas distanciado e pouco profundo. São duas horas que não saem muito do mesmo lugar, em um filme com medo de ousar ser mais do que diálogos intelectuais, uma afastamento do carnal justamente para falar sobre aquilo que o cinema sempre retratou tão bem e que não poderia ser mais corpóreo: o sexo.

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