|Crítica| 'Presença' (2025) - Dir. Steven Soderbergh
Crítica por Victor Russo.
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'Presença' / Diamond Films
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Filme-Conceito de Steven Soderbergh limita personagens a caricaturas e diálogos a explicações que reforçam seu teor unidimensional e despreocupado com o roteiro
Menos de um mês após o lançamento do ótimo Código Preto, em que Steven Soderbergh voltava a um cinema de gênero menos conceitual e experimental, sem nunca abandonar seu formalismo, o cineasta lança Presença (que na verdade é anterior ao thriller de espionagem e foi exibido no Festival de Toronto ano passado), mais uma de suas empreitadas no cinema de gênero muito mais preocupado em evidenciar um artifício do que em construir uma narrativa mais sólida. Aqui, o efeito é imediato, desde o início compreendemos a decupagem como o ponto de vista de um fantasma preso àquela casa (ainda que o filme adicione uma cena com uma médium só para tornar a informação mais evidente), tratando-se, então, de um longa todo construído a partir de uma câmera subjetiva (semelhante ao recente O Reformatório Nickel e mais um punhado de obras na história dessa arte). Ao mesmo tempo, é possível associar o longa com o também recente Aqui, em sua relação com a casa, e A Ghost Story, na presença desse fantasma preso àquele local de uma forma meio impotente. Só que as semelhanças nunca tiram esse fator mais original que é típico de Soderbergh, assim como, em suas obras mais conceituais, o resultado quase nunca é tão satisfatório.
Isso se evidencia aqui, um longa que não abandona nem despreza o seu gênero em questão, o terror, mas pouco apreço tem por sua narração. Cria-se uma barreira entre o conceito formal que permeia toda a obra e todos os elementos de roteiro, separação essa que não deveria existir na obra, já que a narrativa parte desse conjunto em que a imagem é indissociável ao conteúdo. Não é o caso em Presença, filmado todo em grande angular que distorce os personagens a fim de mostrar todo o espaço em foco, com essa câmera observadora, seja estática, seja correndo pela casa, os personagens se transformam em meros adereços, restritos à alguns blocos de acontecimentos que quase sempre se prende a diálogos apenas para reforçar o caráter unidimensional daquela família (a mãe megera que mima o filho e não liga para a filha, o pai bonzinho que tenta corrigir essa injustiça, o irmão babaca, atleta e popular, e a irmã em luto pela perda da amiga). Eles nunca avançam para além disso, enquanto ainda se apresenta um vilão bastante bobo e caricato, com direito a plano sendo explicado para uma personagem inconsciente.
É quase como se Soderbergh estivesse o tempo inteiro dizendo “o fantasma são vocês e eu sei que vocês estão aí se divertindo observando, mas completamente impotentes”. O problema é que o escolhido para ser observado não podia ser mais desinteressante e feito a partir desses estereótipos rasos, inclusive na protagonista, que é uma cópia do que o cinema de horror psicológico, como os filmes da A24, tem repetido aos montes nos últimos muitos anos. Fica claro que o longa é o conceito formal apenas, todo o resto é desculpa, uma daquelas bem rasas inclusive, a ponto de não acreditar muito na capacidade do espectador entender nada. Os diálogos transbordam explicações sobre aquela família, como se tudo já não estivesse óbvio o suficiente.
É verdade que, apesar de tudo, Soderbergh nunca abandona seu prazer pelo cinema de gênero, ainda que esteja experimentando, não diminui o terror frente ao todo. O problema é que tudo é bobo demais, genérico demais, superficial demais, revelando que sua atenção não parecia ali e sim nessa nova maneira (nem tão nova assim, que fique claro) de narrar uma história. Saindo junto com Código Preto, mostra muito do quão fascinante e irregular é a carreira desse grande, falho e determinado cineasta.