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|Crítica| 'Decisão de Partir' (2022) - Dir. Park Chan-wook

|Crítica| 'Decisão de Partir' (2022) - Dir. Park Chan-wook


Crítica por Victor Russo.

'Decisão de Partir' / Diamond Films

 

Título Original: Decision to Leave (Coréia do Sul)
Ano: 2022
Diretor: Park Chan-wook
Elenco : Park Hae-il, Tang Wei, Lee Jung-hyun, Park Yong-woo e Go Kyung-pyo.
Duração: 138 min.
Nota: 4,0/5,0
 

Park Chan-Wook recorre a “Um Corpo Que Cai” e às mais variadas teorias do cinema sobre o espectador para falar do indivíduo no mundo contemporâneo

Um detetive que começa a observar e seguir uma mulher, fica obcecado por ela,  apaixona-se, descobre que essa mulher sabe da presença dele, manipula-o e o observa de volta. O mistério parece resolvido, até uma nova trama surgir e uma nova versão dessa mesma mulher voltar à tona. Se todos esses eventos da trama soam familiares é porque eles não são invenção de “Decisão de Partir”, mas de “Um Corpo Que Cai”, de Alfred Hitchcock, para muitos o melhor filme da história do cinema.

Tal semelhança não é à toa, ela está no cerne do que é “Decisão de Partir”. Assim como “Um Corpo Que Cai”, Chan-Wook se usa dos elementos do mistério e do romance para falar sobre o cinema e o espectador. Só que aqui, isso aparece em uma relação quase maneirista. Ou seja, o cineasta não está preocupado em simplesmente replicar Hitchcock, mas em trazer Hitchcock para o cinema e mundo contemporâneos, deformando a forma aos moldes do cinema sul-coreano atual, muito marcado por olhar para Hollywood, mas romper com a forma mais suavizada do fazer cinema nos Estados Unidos, substituindo-a por um exagero que destrói a noção de realismo comum ao blockbuster americano.

Isso fica muito claro em obras do Bong Joon-Ho, seja nas atuações mais expansivas ou mesmo em cenas como a do policial dando uma voadora em um suspeito em “Memórias de um Assassino”. Na mesma linha, “Decisão de Partir” nunca rejeita o cinema sul-coreano, pelo contrário, faz dele essa nova forma de olhar para o filme (provavelmente) mais referenciado da história do cinema. Há inclusive uma cena que evidencia isso muito bem, quando a dupla de policiais está perseguindo um suspeito, e o personagem que funciona como sidekick/alívio cômico se cansa na perseguição e fica estirado em uma escadaria ridiculamente (no bom sentido), gerando um humor pelo absurdo bem típico dos filmes atuais do país.

O mesmo vale para a hiperestilização do plano, algo muito comum aos maneiristas. Se Chan-Wook nunca poupou o público de seus exageros estéticos, aqui esse rompimento com o clássico (cinema que tentava esconder do espectador que aquilo era um filme, vendendo uma espécie de realidade, sobretudo pela montagem) é bem mais elegante e menos chamativo. Ele se dá sobretudo em como muitas cenas são decupadas, fazendo a montagem ser executada dentro de um mesmo plano, por exemplo nas diversas vezes em que o protagonista se enxerga dentro de acontecimentos passados ou presentes da mulher que observa. Técnica essa que já foi bastante utilizada pelas Irmãs Wachowski em “Speed Racer”, mas aqui ganha um significado diferente, mais obsessivo na relação entre o que olha e a que é olhada.

Porém, o significado mais interessante que o longa cria está justamente em como fala da relação entre espectador e filme. Por isso, o retorno a “Um Corpo Que Cai” é tão significativo, já que esse longa marca essa passagem do espectador clássico (aquele colocado em uma posição de voyeur, que na segurança de uma sala escura observava um mundo sem ser visto de volta) para o espectador moderno (o que tem consciência de que está assistindo a um filme e que essa obra o reconhece como espectador), sobretudo na figura do personagem de James Stewart, que observava Madeleine/Judy Barton, mas era observado de volta. O mesmo ocorre com Jang Hae-Jun, que observa Song Seo-Rae e só depois descobre que ela tinha consciência de que estava sendo vista.

Entretanto, tal dinâmica de olhar gerou outras teorias acerca do espectador do cinema. Entre elas, o cinema como um espelho (que reflete o espectador), como uma janela, como quadro ou como tela. Acredito que não valha a pena se aprofundar em tais teorias nessa crítica, mas as trago apenas para ressaltar a preocupação de Chan-Wook com essa relação entre observador e observado e, principalmente, entender como o diretor se utiliza de todas essas ideias-objetos para abordar o tema central: o indivíduo na contemporaneidade.

Isso se dá primeiramente de uma forma quase literal àquilo que eu disse no parágrafo de cima. Basta ver como em quase todas as cenas os personagens vão ser filmados por algum filtro/tela/barreira. Seja Seo-Rae sendo vista pelo binóculo do protagonista, o sidekick sendo refletido pela tela de um monitor, monitor esse de uma câmera que filma Seo-Rae, as diversas câmeras na rua ou em interrogatório policial, personagens se olhando no espelho, além de vidros e grades que sempre surgem entre os personagens e a câmera, reflexos variados e, principalmente, a constante tela do celular, presente em quase todas (ou todas) as cenas do longa. 

Só que nada disso é apenas uma referência às teorias sobre o espectador. Todos esses elementos em que a mise en scène se constrói são a base temática do filme. Isso porque “Decisão de Partir” é um filme de investigação também, mas, no fundo, o seu interesse está muito mais no indivíduo e no mundo que o cerca. Não à toa o longa já abre questionando se aquele personagem fica de tocaia porque não consegue dormir ou se não dorme porque fica de tocaia, sugerindo que é muito mais o primeiro do que o segundo. Ou seja, ele se usa da vida profissional justamente porque não consegue lidar com a sua vida pessoal, algo bastante próprio do nosso mundo atual, no qual abandonamos o lazer e o viver em prol do trabalhar para sobreviver ou para esquecer nossa vida pessoal.

Mas esse é apenas o fragmento que nos direciona o interesse central para os indivíduos e não para a investigação em curso, o que cresce a partir do momento que o personagem vai abandonando o seu papel de investigador e assumindo cada vez mais o de amante, transferindo sua atenção maior de descobrir o que aconteceu para o amar aquela mulher por qual está obcecado. 

E se essa obsessão já é um elemento bastante comum do mundo contemporâneo, apesar de não restrito a ele, Chan-Wook vai fazer questão de conduzir essa narrativa cada vez mais excluindo os personagens secundários, enquanto volta sua câmera para o casal principal que vai se formando. Porém, se ele exclui os demais personagens, não faz o mesmo com o mundo que ronda Hae-Jun e Seo-Rae, já que o interesse do cineasta está justamente em como esses personagens existem e funcionam dentro desse mundo.

É aí que mais uma vez retornamos às escolhas estéticas e temáticas, de filmar tudo por meio de telas e fazer do celular uma figura tão central. Os personagens dependem desse objeto, ao mesmo tempo que o celular se torna preponderante na trama por diversas vezes. É esse celular que fotografa as provas (rejeitando a câmera digital da outra policial) e o corpo da mulher observada, é ele que grava um áudio de alguém que não sabia que estava sendo observado, é por meio dele que o casal conversa e é ele mesmo que vai virar prova nos momentos chaves. Além disso, as câmeras, os espelhos, os carros e o binóculo vão complementar esses elementos de cena que se tornam a estética do filme.

É quase um mundo que oprime esses personagens, ao mesmo tempo que os vigia, manipula-os, une-os e por meio deles que a obsessão cresce, como se esse mundo de telas, câmeras e olhares empurrasse esses personagens para perto ou para longe, gerando um novo mundo particular para esse casal, em um amor que nunca pode ser vivido porque um mundo maior os impede e os afasta, mesmo quando os aproxima (a cena deles sentados no banco de trás, unidos por uma algema, enquanto ela é levada para a prisão, é a prova dessa ambiguidade). São as mais puras contradições dessa contemporaneidade os levando em um fluxo de acontecimentos que importa menos do que eles mesmos, mas os comprime a pertencerem a esse mundo que nunca para de observar.