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|Crítica| 'Pinóquio por Guillermo del Toro' (2022) - Dir. Guillermo del Toro e Mark Gustafson

|Crítica| 'Pinóquio por Guillermo del Toro' (2022) - Dir. Guillermo del Toro e Mark Gustafson


Crítica por Victor Russo.

'Pinóquio por Guillermo del Toro' / Netflix

 

Título Original: Guillermo del Toro's Pinocchio (EUA)
Ano: 2022
Diretores: Guillermo del Toro e Mark Gustafson
Elenco : Gregory Mann, Ewan McGregor, David Bradley, Christoph Waltz, Tilda Swinton e Ron Pearlman.
Duração: 117 min.
Nota: 4,0/5,0
 

Guillermo Del Toro modifica o imaginário do Pinóquio ao inseri-lo em seu mundo particular, integrando os temas de sua filmografia à mise en scène do longa

Apesar de dirigido também por Mark Gustafson, “Pinóquio” já tem em seu título original, “Guillermo del Toro's Pinocchio” (em português, também ficou “Pinóquio por Guillermo Del Toro”, mas está sendo menos vendido assim), a prova de que se trata de uma obra com toda a assinatura do cineasta mexicano. Muito envolvido com animações desde sempre, produziu quase meia dúzia delas antes de estrear agora na primeira que assina como diretor.

Del Toro dá, então, continuidade em seu olhar para o passado do mundo e do cinema, o que já ficava bastante claro em “Labirinto do Fauno”, “A Forma da Água” e em seu trabalho anterior, o remake “O Beco do Pesadelo”, que reinventa boa parte da obra original, adicionando uma aura gótica e um comentário sobre o próprio cinema noir e sua relação com o pós-guerra.

Porém, se em seu último filme o cineasta suavizava o discurso quase o tornando imperceptível, em “Pinóquio”, ele escancara a temática. Desde o início, fica claro que ele não tem nem uma pretensão de se manter restrito à história que se tornou popular com a animação da Disney, por mais que retorne a muitos dos eventos presentes naquela obra. O cineasta está mais uma vez interessado em fazer da fantasia gótica um dispositivo para traçar um olhar crítico a um passado mórbido, não o escondendo, mas o contrastado com o lúdico, aqui muito presente na ideia que temos de animação.

O stop-motion se torna o cenário perfeito para a sua criação de mundo, com formas distorcidas, exageradas e caricatas, que ora funcionam para soarem terríveis, como a baleia, o conde e o fascista da aldeia, ora mais agradáveis, como Pinóquio, Carlo ou o Grilo Falante, e, muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo, como a morte, que carrega tanto um ar soturno em sua aparência, quanto um fascínio por parte do filme em seus aprendizados a partir do momento que a conhecemos melhor. 

E é justamente ao criar a dualidade muito marcada de seu cinema, sempre com uma definição do bom e do mau, ainda que com personagens mais maleáveis no meio, que Del Toro se utiliza da linguagem cinematográfica para criar esses contrastes, sejam eles por elementos opostos ou semelhantes. Assim, o primeiro plano e plano detalhe, de uma câmera que não tem medo de mirar no objeto de interesse, serve tanto para nos aproximar de Pinóquio, do Grilo e de Gepeto, quanto para tornar temível os traços dos fascistas e dos demais perigos que os heróis terão de enfrentar.

Por outro lado, as cores, formas e movimentos são marcadas pelo contraste de Pinóquio com aquele ambiente. E é justamente aqui que os temas escancarados do longa, o antifascismo, antitotalitarismo e a beleza pelo diferente capaz de quebrar padrões, ganham forma em tela. Em certa medida, Pinóquio é o Hellboy ou Anfíbio (de A Forma da Água) da vez. A criatura rejeitada por aquele mundo por ser “estranho”, essa figura que soa monstruosa em aparência pela qual Del Toro sempre se interessa e se apaixona, ao mesmo tempo que desloca para os humanos a vilania.

Assim, Pinóquio já surge irreverente, brincalhão, desobediente e ativo, querendo conhecer aquele mundo e viver nele da forma mais alegre possível. Tal energia traz movimento e vida àquela mise en scène estática e escura. Esse destaque para o personagem o contrasta com aquele mundo padronizado e mostra como o personagem que iremos seguir é diferente daquela Itália totalitária do período da Segunda Guerra Mundial.

É justamente na mise en scène que Del Toro evidencia para gente que o seu Pinóquio não vai ser um menino de verdade. Muito pelo contrário, ele quer ser apenas essa criança de madeira, que todos tentam usar e o rejeitam na mesma medida. Cabe a Gepeto amá-lo da forma que ele é e, por isso, é o pai que precisa se transformar. 

Claro que tal mensagem pouco tem de nova e o cineasta nem tenta escondê-la. O que torna o filme da Netflix marcante está justamente em como mais uma vez Del Toro olha para o passado e o transforma aos seus moldes, fazendo da fantasia em tela um dispositivo para falar sobre temas mais pesados. Ele não esconde nem as mortes nem os discursos mais nojentos, mas quando eles acontecem em stop-motion ou em um musical se tornam mais palatáveis para todos os públicos. É um olhar para um dos períodos mais cruéis da nossa história sob uma visão peculiar, capaz de combinar tema e estética em prol de uma unidade narrativa poderosa. É uma conversa com as crianças, mas que nada tem de infantil.