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|Crítica| 'Irmãos de Honra' (2022) - Dir. J.D. Dillard

|Crítica| 'Irmãos de Honra' (2022) - Dir. J.D. Dillard


Crítica por Victor Russo.

'Irmãos de Honra' / Diamond Films.

 

Título Original: Devotion (EUA)
Ano: 2022
Diretor: J.D. Dillard
Elenco : Jonathan Majors, Glen Powell, Christina Jackson, Thomas Sadoski e Joe Jonas.
Duração: 138 min.
Nota: 2,0/5,0
 

“Irmãos de Honra” até consegue criar um espetáculo a cada evento, mas não deixa de ser apenas mais um “filme de thanksgiving”

Assim que o trailer foi lançado, muita gente já criou a expectativa de que “Irmãos de Honra” seria uma versão baseada em fatos reais de “Top Gun: Maverick”. Lançados no mesmo ano, ambos os filmes têm Glen Powell no elenco e declaram abertamente um amor à Marinha dos Estados Unidos, além de ter um grupo de pilotos de caças como foco da história. Mas nem vale a pena entrar em uma comparação qualitativa, não faria sentido, além de ser injusto para o longa mais recente.

Em parte, até há algo de semelhante na feitura dos dois filmes, já que são obras que se apoiam um pouco naquilo que “Top Gun” e outros filmes dos anos 1980 fizeram. Após mais de uma década de produções críticas ao militarismo e à Guerra do Vietnã, no movimento conhecido como Nova Hollywood, os anos 80 foram marcados pela retomada dos estúdios no controle das produções hollywoodianas. Por consequência, as críticas deram lugar à propaganda, e não foram poucos os filmes que tinham como objetivo exaltar o exército dos Estados Unidos e o país como potência bélica. “Top Gun” foi o mais famoso justamente por ser responsável direto pelo alistamento de muitos jovens.

Em certo sentido, “Top Gun: Maverick” até resgata um pouco disso no prazer por voar e um retorno à Guerra Fria, mas o seu objetivo propagandístico é muito menor do que o seu predecessor. No caso de “Irmãos de Honra”, a busca pela exaltação do país como potência já é muito maior, e se utiliza da “honra” como principal motor dramático de convencimento.

Entretanto, apesar de um valor propagandístico disfarçado de história real preocupada com causas progressistas, “Irmãos de Honra” tem um pouco menos a ver com “Top Gun” e mais a ver com o thanksgiving. Chamado no Brasil de “Dia de Ação de Graças”, trata-se do principal feriado dos Estados Unidos, sempre ocorrendo na última semana de novembro, exatamente quando o filme foi lançado no país.

É comum que tal feriado conte com filmes meio genéricos de guerra baseados em fatos reais e que exaltem o valor patriótico. Obras menos preocupadas em seu valor artístico e mais focadas em criar uma mensagem de exaltação dos Estados Unidos como maior nação do mundo, o que tem tudo a ver com tal feriado. E, nesse tipo de filme, quase sempre a honra é o elemento de caráter, como se um grande país devesse ser antes de mais nada honroso. Nesse sentido, o longa preenche todos os pré-requisitos das obras lançadas em tal feriado todos os anos.

Todavia, apesar de um discurso frágil sobre o racismo que o longa até tenta centrar como principal motriz narrativo, mas não passa do clichê de sempre de tudo ser narrado pela visão do “branco bom”, o longa pelo menos encontra algum valor artístico em como o diretor Justin Dillard consegue criar grandes espetáculos com cada momento. Da menor discussão, passando por uma briga no bar, uma entrada em um cassino, um encontro com uma estrela do cinema, até, claro, as sequências aéreas, a direção sempre dilata o tempo e cria pausas para que cada um daqueles momentos soem relevantes, grandiosos e emocionantes, sem qualquer medo de soar brega ou piegas. É justamente aí que o longa encontra os seus melhores momentos dramáticos, quando insere o heroísmo ou a questão racial direto na ação, integrando temas à mise en scène.

É uma pena que esses momentos são poucos dentro de um filme que se coloca dentro de um protocolo nacionalista. O típico longa de thanksgiving, que aqui ainda se vende como progressista por um discurso antirracista pra lá de problemático.