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|Crítica| 'Aftersun' (2022) - Dir. Charlotte Wells

|Crítica| 'Aftersun' (2022) - Dir. Charlotte Wells


Crítica por Victor Russo.

 

'Aftersun' / MUBI & O2Play

 

Título Original: Aftersun (UK)
Ano: 2022
Diretora: Charlotte Wells
Elenco : Paul Mescal, Frankie Corio, Celia Rowlson-Hall e Sally Messham.
Duração: 102 min.
Nota: 4,0/5,0
 

Charlotte Wells se usa da capacidade da câmera de criar realidades para fazer um estudo sobre o registro e a memória

André Bazin, um dos maiores críticos e teóricos de todos os tempos, diria que o cinema era a arte que melhor poderia resolver o problema da forma. Ou seja, Bazin acreditava em uma teoria realista que defendia o cinema como uma arte capaz de filmar o mundo da maneira mais real possível. Mas, mesmo ele, o maior teórico realista da história, entendia que a capacidade única da câmera cinematográfica de captar um mundo por meio de imagens em movimento não era suficiente para transformar essa arte em realidade pura e simples. Essa contradição se dava a partir do momento em que até filmes realistas, ou neorrealistas, que ele tanto amava, ainda assim, dependiam de uma encenação, e, portanto, tornavam-se uma representação da realidade e não a realidade em si.

Apesar de distante temporalmente, tal qualidade inerente à câmera pode ser sentida em “Aftersun”. Aqui, Wells vai construir sua narrativa por meio de dois olhares principais, a sua câmera, distanciada e onipresente, que funciona como uma reconstrução mental da protagonista com o seu passado, e uma câmera diegética, que registra parte das férias que a personagem passou com o seu pai na Turquia. A cineasta, então, usa-se dessas duas visões para falar tanto das possibilidades da câmera cinematográfica quanto para fazer uma viagem ao passado e confrontar memória e registro. 

Porém, apesar de uma parecer um registro do real, enquanto a outra remete a uma lembrança que pode ou não ter acontecido daquela forma, na prática, ambas visões vão ter um mesmo fim dramático: o recorte do passado segundo um olhar. Por isso, Wells não tem qualquer pretensão de reconstruir dias inteiros ou longas sequências a fim de criar uma continuidade temporal. Muito pelo contrário, o interesse da narrativa está muito mais nos momentos.

Dessa forma, a câmera utilizada por pai e filha vai também atingir apenas a função de representar fragmentos segundo um olhar específico, e não necessariamente uma reconstrução do passado de forma realista. Ou seja, tanto essa câmera quanto a lembrança da personagem vão funcionar muito mais como memórias de bons (e alguns maus) momentos que marcaram a vida da protagonista e fizeram do seu pai alguém que sempre será lembrado em sua vida.

Ambas as visões narrativas vão abrir mão de um contexto ou de uma temporalidade clara. O que vale é aquela visão específica do momento que ficará para eternidade, seja em uma câmera de vídeo ou na memória. Isso vai de encontro com as nossas lembranças, com o poder de sentirmos algo só de recordar momentos. Ao mesmo tempo, nossas lembranças são sempre fragmentos, nunca uma continuidade clara de eventos, mas peças deslocadas no espaço e tempo capazes de provocar sensações e servirem como um registro que pouco importa o quanto tem de realidade. A partir do momento que um evento vira memória, ele adquire uma nova verdade, um novo poder que nos toca das mais variadas formas.

É justamente esse passeio pela lembrança que vai mover “Aftersun”, essa recordação de um passado distante que nunca será esquecido, mesmo que seja lembrado de uma forma distinta do que realmente aconteceu. Até porque, na memória ou em uma câmera de vídeo, o passado sempre vai retornar como fragmentos que só tomam forma a partir da visão que os criou, seja essa visão o olhar de quem manejou a câmera ou processo mental que se criou na cabeça de uma personagem.