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|Crítica| 'O Menu' (2022) - Dir. Mark Mylod

|Crítica| 'O Menu' (2022) - Dir. Mark Mylod


Crítica por Victor Russo.

'O Menu' / Searchlight Pictures

 

Título Original: The Menu (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Mark Mylod
Elenco : Ralph Fiennes, Anya Taylor-Joy, Nicholas Hoult, Hong Chau e Janet McTeer.
Duração: 107 min.
Nota: 3,0/5,0

 

“O Menu” usa a gastronomia como brincadeira para falar sobre arte, colocando o diretor no controle dos espectadores, mas se trai no discurso final

O novo filme de Mark Mylod traz Ralph Fiennes de volta aos holofotes, ator subestimado durante toda a carreira que tem a oportunidade de tomar de assalto o filme para si, não só por sua grande atuação, mas porque o próprio longa propõe uma encenação que coloca o seu personagem no controle, como o mestre da obra e comandante dos rumos da história e dos demais personagens.

Claro que a brincadeira com a gastronomia é o que chama mais atenção em um primeiro momento. Um grupo de ricaços, que conta com uma crítica gastronômica, um ator, um fã e uma desconhecida, entre outros personagens-arquétipos, indo a uma ilha isolada, conhecendo a dinâmica inusitada do local para depois experimentar uma série de pratos propostos por um chef sério, ameaçador e apaixonado por sua comida. A premissa cativante e cheia de lacunas é o suficiente para nos envolver naquele jogo que pode sair do controle a todo instante e já demonstra elementos próprios do terror desde os primeiros momentos, ainda que o filme em si seja uma sátira bastante escancarada.

Só que o interesse de “O Menu” aos poucos vai se revelando outro. A gastronomia serve como piadas e até um pouco para introdução de elementos mais próprios do terror, mas, na verdade, o filme está falando sobre arte, mais precisamente até sobre o próprio cinema. Tais personagens então vão se tornando facilmente identificáveis, já que não há uma busca por desenvolvê-los, mas por mantê-los restritos a uma função básica, o que não é um problema, apesar de algumas construções bem frágeis, como a da crítica que é apenas uma chata frustrada que fala mal de tudo e não tem conhecimento nenhum (mais uma vez roteiristas e diretores não fazendo ideia do que é a crítica de cinema e qual a sua função dentro da arte).

Com isso, o jogo comum ao cinema, do espectador em uma zona de conforto, mesmo quando confrontado pelo filme, é modificada aqui. Isso porque o chef, ou diretor, toma o controle da obra e obriga os seus degustadores, ou espectadores, a apreciá-la da forma que ele acha a mais correta. Assim, fica bastante escancarada a escolha simples, mas eficiente de Mylod em transformar os personagens em arquétipos que possam preencher diversos públicos presentes em uma sala de cinema. O fã que se acha dono da obra, a crítica, o que faz parte da indústria e está frustrado com ela, o que assiste filmes sem apreciar nada neles e a espectadora que deseja apenas se divertir sentindo algo, sem recorrer à racionalidade.

Então, por mais que tais críticas mais escancaradas à indústria cinematográfica e debates sobre arte não sejam nada originais, eles acabam funcionando a partir do momento que Mylod tem um interesse de apresentá-los dentro de uma lógica cinematográfica, em uma encenação que consegue inserir o riso nervoso da sátira a uma decupagem e sonorização mais própria do terror psicológico, buscando bastante o primeiro plano e o susto pelo som repentino (aqui não tanto como um jump scare tradicional, mas tendo efeito parecido, sobretudo nas palmas fora de campo ou inesperadas do personagem de Fiennes).

O problema é que depois de muita degustação de discursos que soam sempre bastante ambíguos, por exemplo, na figura do diretor, que se mostra atraente e apaixonado pela sua arte, mas ao mesmo tempo arrogante, frustrado e incapaz de se conectar com o seu público, o longa acaba por se trair na necessidade de apresentar uma moral final, bater o martelo sobre o que seria a importância da arte em meio a tanta superficialidade, sobretudo daqueles que se acham os detentores do conhecimento (basta ver como a crítica, o produtor, o ator e o fã são os mais ridicularizados aqui). 

Mylod recorre então a uma defesa da abordagem mais popular, aquela em que o filme se mostra mais preocupado em tocar o público e menos em trazer um discurso profundo, ou coisa do tipo. O problema é que ao defender essa abordagem mais frontal, o cineasta contradiz aquilo que sua mise en scène apresenta desde o primeiro segundo. Isso porque “O Menu” é um filme que rejeita completamente elementos mais próprios do terror, até o gore presente naquele universo é deixado fora de campo e não apresentado graficamente. Tudo isso em busca de um filme que se encaixe na lógica desse terror psicológico mais dramático que tem sido defendido por uma base da cinefilia nos últimos anos, sobretudo por meio da A24. É quase como se, sem perceber, o longa, no final, criticasse exatamente aquilo que ele mesmo é.