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|Crítica| 'Até os Ossos' (2022) - Dir. Luca Guadagnino

|Crítica| 'Até os Ossos' (2022) - Dir. Luca Guadagnino


Crítica por Victor Russo.

'Até os Ossos' / Warner Bros. Pictures

 

Título Original: Bones and All (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Luca Guadagnino
Elenco : Timothée Chalamet, Taylor Russell, Mark Rylance, Michael Stuhlbarg, Chloë Sevigny e André Holland.
Duração: 131 min.
Nota:4,0/5,0
 

Luca Guadagnino retorna, ao seu modo, aos filmes de jovens transgressores dos anos 1970 para falar sobre se descobrir no outro

Diretor dos recentes “Me Chame Pelo Seu Nome” e “Suspiria”, Guadagnino é um caso curioso de diretor que consegue ter uma assinatura mesmo com filmes formalmente bem diferentes entre si. Isso porque seus personagens sempre aparecem como prioridade maior de uma narrativa de identidade ou autodescoberta, seja em um romance de verão, como no longa de 2017, ou em uma escola de balé dominada por bruxas, como no de 2019 (em que essa busca pela identidade ganha uma nova forma no plot twist do filme).

É interessante, então, perceber como “Até Os Ossos” conserva vários elementos de seus filmes anteriores, sobretudo os dois já citados, mas consegue ter uma cara própria ao mesmo tempo. Aqui, a descoberta deixa de ser consigo mesmo ou numa ocultação de identidade, mas o se conhecer, reconhecer e entender no outro e com o outro. Fazendo assim, do chamativo e divisivo canibalismo que tem vendido o longa mais uma metáfora que permite adentrar o longa no horror, enquanto traça comentários sociais, do que a figura central do filme.

Se na sua última obra ele retornou ao Giallo apenas como forma de mostrar uma visão própria que referencia o gênero (por mais que “Suspiria” não seja exatamente um Giallo), em “Até Os Ossos”, o cineasta mira nos filmes protagonizados por casais jovens e transgressores deixando um rastro de crime e sangue pelos Estados Unidos. Ou seja, o tipo de road movie que foi bastante recorrente na Nova Hollywood, movimento que começou no final dos anos 1960 e ganhou ainda mais força nos 70, justamente ao colocar os jovens em primeiro plano pela primeira vez na história do cinema americano.

Só que, se obras como “Bonnie e Clyde”, “Assassinos em Série” e “Louca Escapada”, só para citar três do período, já eram uma forma meio maneirista de referenciar, subverter e gerar um discurso político sobre os populares filmes de gângster da Hollywood Clássica, o longa de Guadagnino dobra a aposta ao criar uma identidade própria em um estilo de narrativa que se tornou recorrente a ponto de atingir uma certa banalidade.

Assim, ao mesmo tempo que referencia o cinema moderno estadunidense, e também bebe da fonte do horror extremo francês, sendo “Raw” a referência mais clara, Guadagnino ainda mantém o longa em uma lógica mais própria e até hollywoodiana de se fazer cinema. O gore se faz presente, mas apenas eventualmente e quando o sangue serve a um propósito temático, deixando o choque visual só para a primeira mordida da protagonista e a última morte (o abrir e fechar da história desses personagens). 

Como resultado, Guadagnino dá sua cara ao ter nos personagens o seu lugar seguro, com uma câmera que nunca os julga, mas busca entendê-los junto com eles mesmos. Esse esforço de empatia que ele pede ao espectador contemporâneo (o que era muito mais natural nos tempos de contracultura) se torna mais possível a partir do momento que a obra diferencia o seu casal principal tanto dos que parecem iguais a eles (os outros canibais), sempre representados como vilões ou ameaças, quanto das pessoas comuns, que fogem deles.

Maren (Taylor Russell) e Lee (Timothee Chalamet) são jogados em um mundo que os rejeita de ambos os lados, tornando-os diferentes até dos que compartilham o mesmo vício (condição, doença ou chame como quiser, o longa nunca tem pretensão de explicar o canibalismo aqui. Ainda bem!). E é justamente por esse afastamento para com o mundo e o sentimento de solidão, de serem ameaça e ameaçados, e impossibilidade de entender a si mesmo, que o casal funciona tão bem.

É como se eles chegassem em um lugar de impossibilidade de se descobrir sozinho. Isso fica claro na obsessão da protagonista em encontrar respostas com a mãe, mas que resulta em mais perguntas e frustrações. Resta, então, a Maren e Lee viverem essa jornada juntos, aprendendo pelo compartilhamento, seja de ideias, gostos, concessões, atitudes ou olhar para o futuro. Ainda que esse futuro tenha tudo a ver com o gênero/movimento que o longa mais se apoia, o pessimismo da Nova Hollywood que não via um futuro viável e feliz para esses jovens nesse país, mesmo após nos fazer se aproximar deles por mais de duas horas.

E, se agora você está se perguntando por que eu pouco falei sobre o Canibalismo no filme e seus significados, isso é por eu acreditar que, como em tudo no cinema, não há uma resposta certa sobre o tema. Relação da sociedade com usuários de drogas, marginalização dos considerados diferentes, internet como construção de bolhas sob os olhos da sociedade e depois se tornam um risco. São muitas as possibilidades, todas elas válidas. Porém, o mais importante é entender como esse elemento chamativo é o que une os personagens e os distancia de todo o resto, sendo palco para esse amor à la Guadagnino, ao mesmo tempo que tem uma força muito mais sensorial do que explícita. “Até Os Ossos” é muito mais do que só o choque de ver gente comendo gente.