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|Crítica| 'Nada de Novo no Front' (2022) - Dir. Edward Berger

|Crítica| 'Nada de Novo no Front' (2022) - Dir. Edward Berger


Crítica por Victor Russo.

'Nada de Novo no Front' / Netflix

 

Título Original: Im Westen nichts Neues (Alemanha)
Ano: 2022
Diretor: Edward Berger
Elenco : Felix Kammerer, Albrecht Schuch, Aaron Hilmer, Edin Hasanovic e Daniel Brühl.
Duração: 147 min.
Nota: 4,0/5,0
 

“Nada de Novo no Front” se debruça sobre os contrastes para retratar uma Guerra sem heróis

O longa de Edward Berger e representante da Alemanha para o próximo Oscar abre com uma série de paisagens vazias e dominadas por um som ambiente calmo. Tudo isso antes de preencher esses espaços com corpos para em seguida entrar no caos da primeira batalha do filme. Trata-se do primeiro contraste marcante da obra, ainda que, nesse caso, eles sejam menos distantes tematicamente do que parecem, já que seja na calmaria ou no tiroteio o resultado é sempre o mesmo: corpos por todos os lados.

Então, após uma rápida passagem por esses personagens, que serão centrais na história, entrando para o exército, o longa volta suas atenções mais uma vez para esses últimos momentos da Primeira Guerra Mundial. Primeiro em 1917 e depois dias antes do armistício, em novembro de 1918. Só que aqui pouco veremos do modo hollywoodiano de trabalhar o gênero, o que fica evidente se contrastarmos esse longa com “1917”, último filme sobre a Primeira Guerra feito pelos grandes estúdios a ganhar mais atenção.

Se no filme do Sam Mendes havia a desculpa da imersão pelo plano-sequência, mas que na prática estava mais para um fetiche por planos difíceis, em um longa que romantiza a Guerra com bonitas imagens, enquanto define um mocinho e os vilões (que têm até seus rostos escondidos), na obra da Netflix, a imagem vira um retrato dessa visão desoladora e sem heroísmo de Berger. O esverdeado toma conta da tela para criar uma uniformidade em uma Guerra sem reais vencedores, pelo menos não entre aqueles que participaram ativamente dela. De forma semelhante, os planos mais abertos vistos de cima descorporificam aqueles personagens em meio à ruína completa.

Porém, a dialética central do longa está entre o que ocorre dentro e fora da zona de combate. Por um lado, os que dão as ordens se escondem em salas e vagões luxuosos, cumprimentam-se com pompa e aproveitam de fartas mesas cheias de variadas comidas. Por outro, Berger leva o desespero dos combatentes ao nível de nos fazer presenciar soldados recolhendo a identificação de outros soldados após cada batalha, transformando os mortos em apenas um corpo, ou tendo que roubar fazendas para se alegrarem com um mísero ganso dividido entre todas os presentes. Talvez o ápice disso seja o momento em que os soldados, em meio a um combate feroz nas trincheiras, param para comer a refeição dos adversários.

Esse clima de desolação se volta para os personagens centrais, pelos quais criamos apego pela relação de parceria, mas que nunca vemos como prováveis heróis. Não à toa, o mais próximo de um heroísmo é revelado logo após o possível herói tentar salvar em vão o soldado francês que acabou de apunhalar. Hesitação essa que vai se repetir apenas quando os personagens de lados opostos ficam frente a frente e reconhecem o rosto do seu oponente como uma face humana. São os únicos pequenos momentos em que eles deixam de ser soldados e voltam a ser seres humanos. Mas o final é sempre o mesmo: morte.

Assim, o longa alemão adota o cepticismo de um evento que levou a vida de quase 17 milhões de pessoas para contrapor aqueles que estavam no front, seja em momentos calmos antes de uma batalha, depois que os corpos estavam estirados ou, principalmente, quando os jovens estão se matando sem nem saber mais o porquê, com aqueles mais velhos que davam as ordens do conforto de suas salas luxuosas. O pessimismo que toma conta dos minutos finais é só a cereja do bolo nesse mar de tragédia, mortos e esperanças frustradas, seja a mulher da revista, a faculdade que seria cursada ou um simples retorno ao lar.