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|Crítica| 'Halloween Ends' (2022) - Dir. David Gordon Green

|Crítica| 'Halloween Ends' (2022) - Dir. David Gordon Green


Crítica por Victor Russo.

'Halloween Ends' / Universal Pictures

 

Título Original: Halloween Ends (EUA)
Ano: 2022
Diretor: David Gordon Green
Elenco : Jamie Lee Curtis, Andi Matichak, Will Patton, Kyle Richards e James Jude Courtney.
Duração: 111 min.
Nota: 1,5/5,0

 

David Gordon Green encerra sua pretensiosa e caça-níquel trilogia com um “Halloween” quase sem Michael Myers e Laurie Strode

Como quase todas as franquias de slasher da história com mais de quatro filmes (exceção feita à Pânico), “Halloween” entrou há décadas na espiral de sequências e reboots questionáveis, passando de uma dezena de filmes, incluindo até o comemorativo de 20 anos. 

Então, quando a franquia completava 40 anos, em 2018, David Gordon Green surgiu com um novo projeto de trilogia que daria sequência ao primeiro filme, de 1978 e único realmente excelente da franquia, excluindo todas as sequências medianas ou questionáveis que vieram depois. Desde a ideia inicial até às entrevistas do diretor, havia um quê de pretensão no projeto, mas que parecia ter tudo para ser bancada por um diretor que vinha de obras aclamadas pela crítica, como “Joe”, ou pelo público, como “Segurando as Pontas”, e que nada tinham a ver com o terror. Além disso, a volta de John Carpenter para perto da franquia animava ainda mais aos fãs.

Só que já no primeiro longa, ainda que grande parte dos fãs não tenha percebido, ficavam claros os sinais de que o cineasta podia ter até algum talento por trás das câmeras ao compor planos interessantes ou criar cenas sem muitos cortes e que traziam um senso de sequência para as ações, mas estava óbvio que Gordon Green pouco conhecia de Halloween e, principalmente, do Michael Myers. O que até seria perdoável para uma sequência qualquer de baixo orçamento, mas que ficava muito mais difícil de defender no caso de alguém que se colocou numa posição de superioridade e rejeitou qualquer longa que não o original. A régua ficou mais alta, mas o cineasta não era tudo isso que ele pensava.

Se ainda no filme de 2018 o embate final entre Michael e Laurie era inventivo e eficiente o suficiente para justificar esse confronto esperado depois de 40 anos, no longa que deu sequência a trilogia três anos depois pouca coisa se salvava. “Halloween Kills” chegou apenas como um filler, aos moldes das sequências mais esquecíveis da franquia, sustentava-se apenas em Michael matando personagens esquecíveis, enquanto tentava emplacar um discursinho capenga dos cidadãos se tornando irracionais como uma multidão descerebrada. Tanto não funcionou que, prevendo o desastre, a Universal aproveitou a pandemia para jogar o longa direto em seu streaming, o Peacock, nos Estados Unidos.

Mais um ano se passou e chega agora a conclusão da trilogia, “Halloween Ends”, trazendo a sensação de “já vai tarde”. De novo, a Universal pressentiu o desastre a ponto de fazer sessões para os fãs antes de liberar o embargo das críticas, com a completa certeza de que os críticos destruirão o filme e, na esperança, de que pelo menos os fãs mais apaixonados alavanquem o hype sobre a obra, o que não deve acontecer.

Então, se o projeto inteiro de Gordon Green já era pretensioso e tinha tudo para fracassar após a demonstração da obra de 2018, tudo se tornou ainda mais gritante na de 2022. Sendo justo, o prólogo do longa é a melhor sequência de toda a trilogia, resgatando a sensação de um assassino que brinca com o público e com os personagens ao mesmo tempo, estendendo o ato de matar por longos minutos enquanto faz a possível presa correr desesperada por uma casa gigante e ser encurralada em um quartinho sem escapatória, tudo isso antes do choque de uma morte inesperada. Passada essa boa sequência, quase nada se salva.

O discurso do longa retorna com desespero ao filme original, a ponto de atirar frames do longa de 1978 por diversos momentos ou mesmo abrir a obra com uma explicação que mais parece previously de série com episódio semanal, tudo isso sob a desculpa de que Laurie está escrevendo a história que a atormentou por 45 anos. Só que até isso é abandonado rapidamente quando Laurie se torna coadjuvante de sua própria história, e, com ela, Michael também desaparece, não tendo ao todo cinco minutos de tela.

Com isso, ganha espaço um romance de psicopata qualquer nota, trazendo para o protagonismo um personagem só para reciclar o discurso do primeiro filme sobre o mal nas pessoas e se isso é algo natural ou “adquirido” com os traumas da vida. E tudo isso até poderia funcionar como um filme que pouco tem a ver com Halloween, quase como uma tentativa de jogar a franquia para outro lugar e mantê-la existindo sob a ótica de Gordon Green. Não é o caminho que o filme segue.

Mas, para piorar, o diretor demonstra que não é só de Halloween que ele não conhece, é do subgênero do slasher como um todo. Se ele não compreendia a essência de Michael Myers e desse jogo que o assassino criava com o público ao tornar cada morte uma tortura para o espectador e sempre a fazendo de uma forma bastante inventiva, o que virou com Gordon Green menos sobre o como matar e mais sobre o matar em grande quantidade, aqui fica claro também que ele nem sequer entendeu que o cerne do slasher é justamente o prazer pelo ato de matar, algo que até as piores sequências ainda faziam jus. “Halloween Ends” esconde grande parte de suas mortes e quando as mostra é em uma execução rápida que não deixa o público nem sentir o gostinho do terror. 

Que desastre completo! Já vai tarde da franquia, David Gordon Green.