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|Crítica| 'Morte Morte Morte' (2022) - Dir. Halina Reijn

|Crítica| 'Morte Morte Morte' (2022) - Dir. Halina Reijn


Crítica por Victor Russo.

'Morte Morte Morte' / Sony Pictures Brasil

 

Título Original: Bodies Bodies Bodies (EUA)
Ano: 2022
Diretora: Halina Reijn
Elenco : Amandla Stenberg, Maria Bakalova, Myha'la Herrold, Rachel Sennott, Chase Sui Wonders, Lee Pace e Pete Davidson.
Duração: 94 min.
Nota: 3,0/5,0
 

“Morte Morte Morte” acerta ao ser uma sátira que nunca rejeita ou minimiza o slasher

Não deixa de ser curioso que “Morte Morte Morte” e “X - A Marca da Morte” tenham saído quase juntos e sejam da mesma distribuidora, a queridinha dos cinéfilos A24. Ambos têm como ideia central a sátira ao slasher, subgênero do terror que já está para lá de saturado e por isso virou alvo de piadas, subversões e metalinguagens ao longo das últimas décadas.

É interessante perceber então como “X” apenas se usa do gênero como escada para um discurso “superior”, rebaixando o slasher a algo menor e o tratando apenas como protocolo, inserindo mortes sem graça, enquanto se preocupa em uma estilização pomposa e em discursos que vão na essência do fazer cinematográfico e na relação do olho da câmera e do espectador com o cinema, o que é interessante, mas, o filme como um todo claramente rejeita o slasher como um subgênero com valor “artístico”.

Já “Morte Morte Morte” também é uma sátira dentro do slasher, mas que em nenhum momento o renega ou inferioriza. Muito pelo contrário, o novo longa de Halina Reijn usa dos códigos centrais desse subgênero para se divertir e brincar com o público ao subvertê-los. Então, se no slasher tradicionalmente vemos o assassino mesmo sem reconhecê-lo e o ato de matar é o grande prazer para o público, nesse novo longa da A24 não só não vemos o assassino e boa parte das mortes, como passamos a questionar se realmente há um assassino ou se as mortes não são resultado de paranoia e acidentes, dois elementos que parecem completamente opostos aos filmes marcados por serial killers mascarados com objetos cortantes.

Então, Reijn parte da premissa do jogo de procurar corpos para subverter o ato de matar, trazendo o mistério para primeiro plano. Tudo isso com piadas que nunca riem do slasher, mas riem com o slasher, o grande diferencial entre esse longa, que soa até mais despretensioso e comercial, e “X”, que tem uma pretensão de ser alçado como “cinema de arte” (termo que eu abomino, mas uso aqui na falta de um melhor).

Reijn se usa bem da premissa também para construir sua mise en scene, tanto na pouca luz, o que ressalta as lanternas de celulares, luzes de emergência e objetos neon típicos de festas de aniversário, criando uma estilização “justificada”, quanto na forma como ela decupa o longa distintamente antes e depois das mortes começarem, mas sem nunca perder esse ritmo que conversa com a geração Z e as novas mídias, muito presente nos personagens. Isso fica claro, por exemplo, em como a decupagem é repleta de planos fechados durante todo o longa, mas com uma velocidade de cortes até em simples diálogos que cria uma certa ansiedade no espectador bem típico dessa geração.

Além disso, a obra abraça tanto o slasher que parte até de uma premissa banal comum no subgênero: os jovens meio estúpidos e sem identidade fazendo uma festa, bebendo e começando a morrer um por um. Por isso, é justamente quando o filme sai do estereótipo dos jovens ricos e fúteis e tenta desenvolvê-los dramaticamente, dando um background para cada um deles, que o longa desliza bastante. Isso porque, essa construção pouco serve para torná-los mais complexos, mas perde aquela inocência da superficialidade dos personagens desse tipo de filme. Pior que isso, em um filme voltado para essa geração mais jovem, ao ambicionar trazer questões mais atuais e discussões importantes, o longa só nos distancia mais e evidencia a superficialidade desses personagens, apesar do elenco lidar bem com o pouco que tem, com destaque para Amandla Stenberg, Maria Bakalova e Lee Pace.

Dessa forma, “Morte Morte Morte” segue a tendência natural dos últimos 20 anos de um modelo de filme que se saturou pela repetição, e o faz com uma identidade própria, mas sem nunca rebaixar o subgênero que está satirizando. Nesse sentido, ele bebe bem mais na fonte de “Pânico” e se distancia de “X”.