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|Crítica| 'A Mulher Rei' (2022) - Dir. Gina Prince-Bythewood

|Crítica| 'A Mulher Rei' (2022) - Dir. Gina Prince-Bythewood


Crítica por Victor Russo.

'A Mulher Rei' / Sony Pictures

 

Título Original: The Woman King (EUA)
Ano: 2022
Diretora: Gina Prince-Bythewood
Elenco : Viola Davis, Thuso Mbedu, Lashana Lynch, Sheila Atim, John Boyega e Hero Fiennes Tiffin.
Duração: 135 min.
Nota: 3,0/5,0

Com brutalidade e amor, “A Mulher Rei” busca retratar e atualizar essa história fascinante no coração da África, mas não consegue se desvencilhar das amarras Hollywoodianas

Dirigido por Gina Prince-Bythewood, “A Mulher Rei” é uma daquelas obras que o por trás das câmeras e a paixão de seus artistas se fazem presente em tela. Com diretora e um elenco quase todo negro (com destaque para Viola Davis, Lashana Lynch, Thuso Mbedu e Sheila Atim), além de muitos funcionários africanos contratados para a produção, o longa tem garra ao retratar uma luta por liberdade do povo africano dos grilhões da história, liderada por mulheres fortes, temidas, mas humanas.

Ao mesmo tempo, essa parte do continente ganha vida, esse coração da África que une cores, músicas (na trilha sonora diegética e extradiegética), danças, crenças, personalidade, rusticidade e brutalidade. É de se louvar a preocupação da produção por detalhar esteticamente a personalidade daquele povo, o Reino de Daomé e as guerreiras Agojie, nos figurinos, no design de produção e em todo o trabalho sonoro, por mais que se trate de um certo revisionismo histórico, seja para fins dramáticos em alguns casos, ou por falta de consenso acadêmico em outros.

Porém, esse revisionismo histórico pode até ser aceito em muitos casos, essa liberdade criativa da arte e do cinema de criar um retrato próprio, sabendo que a realidade absoluta nunca será encontrada, ao mesmo tempo que cria uma conversa entre o passado e o presente, até por meio de uma idealização de como o presente poderia ser muito diferente se essa visão mais otimista pudesse ter acontecido no passado. Uma espécie de era uma vez, mas que tem o romantismo dos contos de fada substituído pelo sangue derramado como forma de resistência e libertação.

Até a forma como Prince-Bythewood abre o longa, com essas mulheres já causando medo nos homens, antes de mostrarem toda a voracidade sangrenta de quem não será parada em sua busca. Ou mesmo como a cineasta busca dar personalidade (nem sempre consegue) a cada uma dessas personagens em meio às batalhas ou treinamentos, em close-ups de mulheres cansadas, obstinadas, machucadas e fortes. Tudo isso dá vida a esse retrato apaixonado que o filme busca, uma visão criativa louvável.

Mas, infelizmente, Hollywood sempre se fará presente, muitas vezes, no pior que uma indústria cinematográfica tem a oferecer. Limitando a liberdade criativa ou obrigando elementos-algoritmo a serem inseridos à força na obra. Aquelas escolhas que parecem partir dos executivos, desvios que soam como uma espécie de conforto, uma suposta necessidade daquilo que os estúdios sabem que vende, por mais que essas demandas tenham sido criadas por eles mesmos.

Claro que quando digo isso não me refiro à língua inglesa ou mesmo ao sotaque, que muitas vezes me incomoda, mas aqui funciona como um elemento de personalidade àquelas mulheres. Óbvio que qualquer estúdio não investiria em um projeto desse porte falando em outra língua que não o inglês, é o tipo de escolha esperada e que já aprendemos a lidar. O que há de mais comercial no longa vai muito além da língua, mas está em escolhas narrativas como códigos de gêneros e oposição dramática.

Ou seja, em meio a essa batalha por liberdade, pelo fazer o certo, ou do treinamento desgastante para se tornar uma delas, o longa faz questão de inserir sem nenhuma naturalidade o melodrama, sendo uma relação entre mãe e filha o ápice disso, os diálogos que resumem o sentimento dos personagens, um romance extremamente caído (porque amor vende) e, sobretudo, um maniqueísmo meio rasteiro, já que, quem não está acostumado a luta de bem contra o mal no cinema? É mais fácil, não é mesmo?

Só que, nesse meio do caminho, o longa desvia o foco apenas dessas guerreiras e transforma um rei e seu reino, historicamente escravagista, em salvadores do continente. O tipo de revisionismo que trai a própria essência da obra, que são essas mulheres. 

Assim, fica a sensação de que por mais interessada que a obra seja, por causa de sua diretora, roteirista e todos os envolvidos na produção, em ser respeitosa e reverenciar a cultura africana (e até seja bem sucedida nisso em grande medida), aquela visão hollywoodiana de transformar história, cultura e luta social em espetáculo que vende está presente mais uma vez. Isso fica claro, por exemplo, em como a produção não se preocupou em contratar dois atores portugueses para interpretar… portugueses. Até porque aos olhos estadunidenses, quem se importa com um português ridículo cheio de sotaque, não é mesmo?