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|Crítica| 'Moonage Daydream' (2022) - Dir. Brett Morgen

|Crítica| 'Moonage Daydream' (2022) - Dir. Brett Morgen


Crítica por Victor Russo.

'Moonage Daydream' / Universal Pictures

 

Título Original: Moonage Daydream (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Brett Morgen
Elenco : David Bowie
Duração: 135 min.
Nota: 4,5/5,0
 

“Moonage Daydream” é uma série de adjetivos incapazes de descrever a completude da arte e de seu personagem central

Cor. Vida. Sonho. Mudança. Rock. Expressão. Solidão. Intimidade. Máscara. Reverência. Irreverência. Dúvida. Mudança. Transformação. Música. Cinema. Dança. Pintura. Escultura. Incompreensão. Indefinição. Imersão. Realização. Vanguarda. Espetáculo. Espalhafatoso. Exposição. Transcendência. Filosofia. Extravagante. Excêntrico. Belo. Indefinido. Contradição. Arte. São tantas as palavras que se encaixam para tentar definir o que é o novo documentário de Brett Morgen, mas nenhuma chegará perto de interpretar o que vai além da racionalidade.

"Colecionador de Personalidades”, é como David Bowie se define no início do filme. Poucas expressões seriam mais precisas e, ao mesmo tempo, mais abstratas para definir esse artista. Ao ganhar reconhecimento na música pelo seu talento e estilo que rompia padrões, uma espécie de ser com aparência andrógena, bissexual, capaz de encantar homens e mulheres e deixar uma multidão sem saber como reagir a ele, Bowie experimentou de tudo, fez de tudo, tentou ser tudo que lhe deu vontade, não teve medo de mudar, aprender, revisar e se entregar por completo. Poucos documentários são tão capazes de interpretar em imagens o seu cinebiografado de forma tão genuína, simplesmente por entender que definir Bowie é uma tarefa impossível.

"Generalista”, é como Bowie se define em um momento de crise pessoal como artista. Tal palavra é também precisa em sua incapacidade de ser definidora. Bowie é tudo. Ou melhor, pode ser tudo. E é justamente nesse lugar de se colocar não como cantor, ator, pintor, etc, mas como tudo isso ao mesmo tempo, como artista, que Bowie se transforma numa figura moldada pela arte, enquanto molda a própria arte indefinida.

Não deixa de ser belo e poético então que, o cinema parece ser a arte mais impregnada pelo realismo e pela racionalidade, justamente por ser a única a conseguir “fotografar o tempo”, a realizar a ilusão da imagem em movimento. Bazin falou em mito do cinema total (em grande parte não tão bem interpretado), enquanto as tecnologias sempre evoluíram pensando em tornar a imagem mais real. E mesmo nessa arte que parece sempre se voltar para a racionalidade Bowie conseguiu deixar sua marca de subjetividade, fantasia e incompreensão. Mesmo em um filme de Christopher Nolan, o mais racional dos cineastas contemporâneos, Bowie aparece como um físico importante e fez dele uma figura estranha naquela obra.

Bowie é arte e arte é Bowie. Não faltam teorias e teóricos ao longo dos anos que tentam explicar o que é arte. O cinema, quantos tentaram defini-lo como uma coisa só. E por mais que essas ideias unidas a um anseio comercial até possam transformar um pouco a maior parte das obras produzidas em uma unidade, em uma fórmula, elas nunca são capazes de restringir a arte a uma coisa só. Elas nunca conseguirão proibir diferentes artistas de se expressarem das mais diversas formas.

Bowie é um dos artistas que melhor conseguem representar o que é a arte. Essa expressão abstrata capaz de provocar diferentes sensações em cada um que apreciá-la. Pode ela ser racional, simbólica, subjetiva, bela, feia, colorida, acinzentada, transcendente, minimalista, inovadora, formulaica. São infinitos os adjetivos capazes de tentar definir a arte. Todos eles falham miseravelmente já na premissa, porque a arte não existe para ser definida e colocada em uma caixinha. A arte pode ser o que o artista quiser. Mais do que isso, o que o público desejar também, já que o próprio artista perde o controle sobre seus feitos a partir do momento que eles chegam ao mundo.

É justamente o fato de fugir da nossa compreensão que torna a arte algo tão instigante. O mesmo vale para Bowie. Se nem ele mesmo sabe como se definir, se ele mesmo está mudando o tempo todo, vestindo-se e se travestindo das mais variadas formas, cores, expressões e identidades, quem somos nós para tentar entendê-lo completamente? 

É justamente essa incompreensão que nos instiga sobre Bowie e sobre a arte. Retner entende isso perfeitamente e faz do seu documentário uma narrativa fluida, mutável, inconsistente no melhor sentido da palavra. Imagens que mudam diante de nós, às vezes pela montagem que corta, pela metalinguagem com o próprio cinema, ou entrevistas e shows do artista, mas na maioria das vezes pela montagem sem corte, as formas que vão se tornando abstratas e se modificando em outras formas e cores, se ligando sem ser igual, enquanto o som não pede passagem, muda, grita, canta, é belo, é estridente. É muitas coisas, nem todas conseguimos entender, nem precisamos, desde que nos libertemos a senti-las, a sermos envolvidos por aquelas sensações únicas que não compreendemos.