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|Crítica| 'Não se Preocupe, Querida' (2022) - Dir. Olivia Wilde

|Crítica| 'Não se Preocupe, Querida' (2022) - Dir. Olivia Wilde


Crítica por Victor Russo.

'Não se Preocupe, Querida' / Warner Pictures.

 

Título Original: Don't Worry Darling (EUA)
Ano: 2022
Diretora: Olivia Wilde
Elenco : Florence Pugh, Harry Styles, Gemma Chan, Chris Pine, Olivia Wilde e KiKi Layne.
Duração: 122 min.
Nota: 2,5/5,0

“Não Se Preocupe, Querida” é um emaranhado de boas ideias em uma roupagem convencional e pouco inventiva

Chega a ser irônico até que o novo filme de Olivia Wilde venha carregado de polêmicas e fofocas. Justamente esse longa que traz para primeiro plano relações frágeis, sufocadas por um meio. Pessoas que vivem em uma mentira, saibam dela ou não. Fica difícil não pensar na relação então entre Wilde e Florence Pugh, que, ao que tudo indica, estavam brigadas e a própria Pugh teve de dirigir cenas quando a diretora não aparecia no set. Ou mesmo do possível cuspe de Harry Styles em Chris Pine durante o Festival de Veneza. Não dá para saber exatamente o que é verdade e o que é mentira, mas, ainda assim, é divertido ver a força que esses atores fizeram para parecer que estava tudo bem na divulgação do filme, justamente quando a própria obra fala sobre essa sociedade encenada, falsa.

Entretanto, não se pode dizer que esses possíveis problemas de bastidores influenciam na obra em si. A química entre os atores em tela não é afetada, mesmo com muitas interações relevantes entre os quatro citados acima. Assim como há uma coesão narrativa no longa, o que não necessariamente quer dizer um primor narrativo. Os problemas do longa estão muitos mais atrelados a como se insere dentro de um gênero já estabelecido do que no andamento da história em si, ainda que uma coisa afete a outra.

Então, somos levados a uma cidadezinha (ou seria um bairro?) no meio do deserto, ambientada na década de 1950, em que os homens trabalham nessa mesma empresa secreta, enquanto as mulheres não sabem sobre o trabalho deles e seguem uma rotina diária de servir o marido, ir para a aula de balé e aparecer em uma festa com essas mesmas pessoas. 

Porém, desde o início fica clara essa semelhança entre todos os casais, uma sociedade de aparências que busca uma homogeneidade que elimina a personalidade de cada um quase que por completo. Ainda que os carros tenham cores diferentes e os casais tomem uma ou outra escolha distinta, no geral, trata-se de pessoas que soam controladas, seguindo uma fórmula diária. Tal temática aparece ainda de forma mais interessante no uso dos círculos, essa forma totalmente simétrica em que não conseguimos determinar um começo ou um fim.

Não tarda então a percebermos junto à protagonista os eventos estranhos ali presentes. Vamos descobrindo então com ela que tudo é uma prisão e as pessoas nem sequer sabem que estão encarceradas naquele sonho americano perfeitinho. Wilde cria essa proximidade sobretudo ao usar muito o close up em Pugh, além dos planos com espelhos, como se essa personagem estivesse buscando sua própria identidade.

Dessa forma, o terror começa a surgir por meio de códigos, bastante recorrentes é verdade. Objetos que não deviam estar ali, flashes de memória da protagonista, uma música que ela não sabe de onde conhece, uma vizinha que tenta alertá-la antes de ser pega, homens agindo de forma para lá de suspeita e, claro, a trilha sonora que mistura vozes e instrumentos de corda, quase um clichê do terror atual que busca uma atmosfera mais creep.

E Wilde até é eficiente ao inserir essa atmosfera e temáticas. De discussões que começam nessa tentativa de domínio do homem sobre a mulher, mas que passam pela perda de identidade em uma sociedade que busca o padrão, na mentira que é o sonho americano, vida essa que não passa de uma encenação, e vão até um diálogo com o próprio cinema. Podemos ver aqui tanto a tentativa de eliminação do senso crítico por meio da padronização do cinema hollywodiano, mas, principalmente, uma lógica voyeurística que está no cerne do cinema. 

Não à toa, durante grande parte do longa, o personagem de Pine aparece observando a protagonista, sem que essa possa reagir. É o cinema feito historicamente para o olhar masculino, que observa o corpo feminino de uma sala escura, em segurança, sabendo que aquele mundo fílmico não vai julgá-lo ou confrontá-lo. Não à toa, em determinado momento, quando a personagem de Pugh o enfrenta, ele responde dizendo que buscava por alguém como ela desde o início. Esse ponto pode ser visto até como o cinema moderno, aquele que expõe sua técnica e deixa claro para o espectador que sabe da presença dele ali.

Todavia, se no campo temático Wilde consegue trazer questões instigantes, quando inserido dentro do gênero, “Não Se Preocupe, Querida” é uma montanha de obviedade. Primeiro porque a cineasta nem por um segundo consegue nos fazer duvidar da protagonista e de sua sanidade. Segundo porque os códigos do terror são os mais evidentes possíveis, a ponto de qualquer espectador que conhece o gênero seja capaz de interpretar todo o mistério nos primeiros minutos de projeção.

Isso poderia até não ser um problema em outra obra, mas aqui se torna a partir do momento que toda a encenação do longa está presa a uma lógica de mistério e possíveis descobertas por pequenos sinais. Porém, os sinais são grandes demais, evidentes demais, óbvios demais. 

E, se não bastasse tudo isso, Wilde ainda faz questão de romper com a lógica presente desde o início, nos desloca para longe da protagonista e faz sua própria explicaçãozinha sobre o mito da caverna da vez. Parece uma necessidade sentida pelo longa de mostrar que ele é diferente de Matrix e outros longas que partem da mesma ideia filosófica, mas, no fim, a roupagem de “Não Se Preocupe, Querida” é frágil demais para trazer essa identidade que tanto busca. Então, a ironia se faz presente mais uma vez, em um filme que fala loucamente sobre identidade, mas não consegue criar a sua própria.