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|Crítica| 'Era Uma Vez Um Gênio' (2022) - Dir. George Miller

|Crítica| 'Era Uma Vez Um Gênio' (2022) - Dir. George Miller


Crítica por Victor Russo.

 
Título Original: Three Thousand Years of Longing (EUA)

'Era Uma Vez Um Gênio' / Paris Filmes

 

Ano: 2022
Diretor: George Miller
Elenco : Tilda Swinton, Idris Elba, Ece Yüksel, Zerrin Tekindor e Erdil Yasarogluglu.
Duração: 108 min.
Nota: 4,0/5,0
 

George Miller coloca racionalidade e fantasia em confronto em sua carta de amor à contação de histórias

Poucos diretores são tão imprevisíveis quanto Miller, um cineasta que tem a fantasia muito presente em sua carreira, mas a trabalha das formas mais variadas possíveis, com escolhas estilísticas pensadas para cada obra. Fica difícil traçar uma autoria para um diretor que fez filmes tão diferentes como a trilogia “Mad Max”, “Mad Max: Estrada da Fúria”, “Happy Feet”, “O Óleo de Lorenzo” e “Babe”. Ao mesmo tempo, cada um desses longas deixa clara a visão de seu diretor, e em “Era Uma Vez Um Gênio” não é diferente.

Depois do espetacular, frenético, caótico e belo “Mad Max: Estrada da Fúria”, Miller retorna com uma fantasia muito mais intimista, cadenciada, filosófica e até meio terapêutica. Se no seu longa anterior tudo tomava proporções gigantescas, aqui até a presença de um ser mitológico na sociedade é filmado com leveza e paixão. 

Assim, Miller cria uma ode à contação de história, o amor que temos por essas narrativas e a importância dela para a construção social. Para isso, o longa desde o início coloca em confronto a realidade e a fantasia, obrigando ambas a conviverem juntas. Isso surge já na frase que abre o filme, quando a protagonista (Tilda Swinton) fala que aquela história (claramente fantasiosa) é baseada em fatos reais. Aparece também na relação entre uma mulher real e profissionalmente voltada para um lado científico que encontra por acidente (ou não) um gênio (Idris Elba), essa figura mitológica. Ou até na forma como o mundo e a sociedade (reais) são moldados pelas histórias (quase sempre com uma boa dose de fantasia).

Tal diferença também é marcada pelas escolhas visuais e regras propostas pelo longa. Miller destaca bem a diferença entre presente e histórias passadas, saturando estas em tons mais amarelados e acontecimentos fabulescos, enquanto o real presente se passa em um quarto de hotel sem nada de muito especial e com movimentos de câmera e uma decupagem bem mais contida. O mesmo vai acontecer com a figura mágica, o gênio, que segue a regra dos três pedidos, como alguém tirado de histórias antigas, mas que, ao mesmo tempo, tem uma anatomia próxima ao mundo real e físico, sendo afetado pela modernidade inclusive.

Então, ao colocar real e fantasia no mesmo mundo, Miller aproxima aqueles personagens por elementos humanos, a solidão de ambos e suas paixões pelas histórias. Aqui, é quando Miller mergulha de vez em uma visão mais filosófica e, ao mesmo tempo, resgata a essência do ser humano e a construção da sociedade: a natureza de contar histórias e acreditar nelas.

Partindo para um lado mais científico e biológico, muitos estudiosos ressaltam que o que fez os homo sapiens prevalecerem foi a capacidade de se reunirem em grandes grupos, mesmo que essas pessoas morassem longe e nem se conhecessem. Isso porque, o homo sapiens é a única espécie capaz de contar histórias e acreditar nelas. Só por isso, vivemos em uma sociedade com religiões, ideologias, fan bases ou a própria ideia da globalização, com instituições e moedas que se integram por vários territórios. Sem percebermos, vivemos em um mundo de histórias, quase fantástico, em que precisamos acreditar em muitas coisas para a roda continuar girando.

De certa forma, Miller está falando sobre isso quando viaja por boa parte da história da sociedade humana e ressalta esse fascínio que temos pelos contos. Entretanto, o faz rejeitando essa abordagem mais científica e permitindo ao filme entrar numa espiral fantástica e cheia de coincidências, que vão moldando a relação entre os dois personagens principais. Enquanto o gênio se mostra cada vez mais humano, inclusive cobrindo as partes de seu corpo que o diferenciam de um ser humano, a protagonista começa a acreditar na fantasia e a querê-la em sua vida. É esse encontro entre fantasia e realidade que faz surgir o amor, tanto nos personagens quanto pelas histórias contadas.