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|Crítica| 'A Fera' (2022) - Dir. Baltasar Kormákur

|Crítica| 'A Fera' (2022) - Dir. Baltasar Kormákur


Crítica por Victor Russo.

'A Fera' / Universal Pictures

 

Título Original: Beast (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Baltasar Kormákur
Elenco : Idris Elba, Leah Jeffries, Iyana Halley, Sharlto Copley e Riley Keough.
Duração: 93 min.
Nota: 3,0/5,0

 

“A Fera” aposta na ação direta e na tensão por meio dos planos-longos para construir o thriller de sobrevivência de animal gigante e quase sobrenatural

Baltasar Kormákur é um daqueles diretores que os estúdios adoram, um cineasta disposto a fazer longas genéricos em todos os sentidos, com uma pegada meio B e direção quase protocolar. O tipo de cineasta que dificilmente estará em um longa de grande orçamento, ao mesmo tempo que passa longe do cinema mais autoral ou independente. Porém, está sempre com um novo projeto tratado como funcional, de médio orçamento e que encontra o seu público para fazer a “roda girar”.

Em seu novo longa, Kormákur segue sem qualquer vergonha de se debruçar por diversos clichês ou fazer um filme de gênero que não propõe nada de muito novo. Entretanto, em “A Fera”, o diretor se mostra competente o suficiente ao partir para uma ação direta, sem desvios melodramáticos ou escolhas que tentem tornar a obra mais profunda (ou pseudo profunda, como geralmente acontece em casos assim). 

Para isso, o diretor entende as limitações do roteiro de Ryan Engle (que tem uma carreira com menos produções, mas bastante semelhante ao diretor em seus projetos), suas inúmeras facilitações, proteção ao trio central, ameaças convenientes e diversas escolhas estúpidas dos personagens para aumentar o perigo. 

A partir disso, Kormákur rejeita escolhas mais “lógicas”, enquanto se foca na tensão por meio dos planos-longos com movimentação constante. A cena vai sendo decupada sem a necessidade dos muitos cortes, predador e presas aparecem se digladiando numa relação de vingança-sobrevivência colocando o espectador como testemunha e fazendo dos poucos cortes a agonia da ação que parece se desenvolver diante dos nossos olhos.

Com isso, como é comum nesse subgênero do thriller, o leão não surge como uma ameaça real, mas, sim, como um ser sobrenatural, sedento por vingança, de resistência extraordinária e inteligência mais impressionante ainda. Uma máquina de matar quase imbatível que terá de ser superada por um homem comum a fim de salvar suas filhas (a escolha de não fazer do personagem de Idris Elba o clichê do ex-militar funciona bem para aumentar ainda mais a disparidade entre os opostos). 

Se o animal supera qualquer expectativa de realidade, o longa o faz com plena consciência. O interesse do roteiro de Engle está muito mais na sensação de ameaça constante, que é reproduzida por Kormákur não só pelos planos longos, mas nas poucas passagens de tempo, ameaças que surgem de repente a todo instante e principalmente na ausência do predador em tela. É a sensação de ser observado e do perigo que pode surgir de qualquer lugar que move a narrativa.

Todavia, a escolha de Kormákur que mais chama atenção é como ele escolhe trabalhar o CGI de sua criatura em meio àquela savana. Hollywood e sua hiper dependência da computação gráfica realista geralmente tenta esconder a artificialidade da técnica com tons de cinza, fumaça e cenas noturnas. Mas, por mais que boa parte de “A Fera” se passe à noite, o cineasta não tem vergonha nenhuma de exibir sua criatura também diante o dia, às claras. Mais do que isso, ao se apoiar nos planos-longos e planos-sequência, o filme o tempo todo tem de colocar essa criatura em movimento, atacando, caçando e o faz mostrando suas presas tentando fugir desse monstro da savana. É como um bico para longe nessa obsessão pelo realismo que vem matando a magia do cinema em Hollywood.

Então, “A Fera” consegue contornar seu roteiro problemático ao se preocupar com uma abordagem direta da sobrevivência e fazer da imagem o seu objeto de interesse, a base para a construção de tensão. Longe de ser um primor, é um filme com uma pegada meio B, mas orçamento relativamente alto, não deve nada para maioria dos blockbusters que dominam as telas atualmente.