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|Crítica| 'Trem-Bala' (2022) - Dir. David Leitch

|Crítica| 'Trem-Bala' (2022) - Dir. David Leitch


Crítica por Victor Russo.

'Trem-Bala' / Sony Pictures

 

 
Título Original: Bullet Train (EUA)
Ano: 2022
Diretor: David Leitch
Elenco : Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Brian Tyree Henry, Joey King, Zazie Beetz, Bad Bunny, Andrew Koji, Michael Shannon e Sandra Bullock.
Duração: 127 min.
Nota: 3,0/5,0

Em filme caótico e cheio de neon, o “Trem-Bala” de David Leitch está mais para montanha-russa 

É comum em Hollywood, como uma indústria cinematográfica que visa sempre o lucro em primeiro lugar, a replicação à exaustão de técnicas que deram certo antes. Por isso, não deixa de ser irônico que esse novo filme de David Leitch, vendido pela Sony como “uma história original” [em meio a um oceano de sequências, franquias e remakes], reutilize uma estética que virou sinônimo de estilo ou fotografia “bem trabalhada”, mas na prática vem sendo usada apenas porque soa inovador (mas não é). O que fica claro, sobretudo, no uso do neon. 

Claro que isso não é novidade na carreira de Leitch, “Atômica”, por exemplo, usa estilo semelhante para construir aquela guerra fria mais “descolada”. Porém, trata-se de uma técnica que já vem se tornando um clichê, principalmente em filmes blockbusters que tentam se vender como “diferentes”, mas que se estende também para um cinema mais “alternativo” (as obras de Nicolas Winding Refn são um exemplo disso). É bem verdade que em alguns casos tal estilo até funciona, como no ótimo “John Wick: Parabellum”, que faz dessa Nova York hiper estilizada um palco para seu balé mortal. Mas, na maioria das vezes, o uso do neon parece mais falta de inventividade mesmo (ou uma tentativa de aparecer naquelas páginas de rede social dispostas a compartilhar frames dos filmes a fim de provar “como aquela fotografia é bonita”). 

Por isso, não é à toa que “Trem-Bala” seja situado no Japão e se inicie em Tóquio. Tal escolha vira desculpa não só para voltar Hollywood mais uma vez em direção a Yakuza (até porque, qual outra máfia usa katanas, algo super descolado, não é mesmo?), como também escolhe uma cidade marcada pelo caos visual e as muitas luzes, dominada pelo neon. É a partir dessa escolha de cores que o novo longa de Leitch constrói toda a sua mise en scène, tudo em prol da diversão sem limites, imparável e colorida. 

Com isso, o filme não tem vergonha em se encher de excessos, em ser caótico e seguir o ritmo do trem-bala que dá nome ao longa, não cessando quase nunca, com exceção de pequenas paradas de um minuto. A câmera gira, cartazes coloridos entram na tela para apresentar personagens, piadas se repetem sem parar, flashbacks estilizados surgem do nada a todo instante para passar informações, em um vai e volta de ações que parece nunca ter uma pausa. É um filme que não tenta esconder que é filme, muito pelo contrário, exibe todas as suas técnicas. Mais do que preocupado com a imersão, Leitch está interessado em criar um caos que incapacita o espectador de parar e pensar por dois segundos sobre o que está assistindo. Somos jogados em um fluxo de ações sem volta. 

E para fazer todos esses elementos visuais funcionar, o cineasta faz de seu gigante elenco agentes desse caos que nem tenta ser organizado. Todos os personagens falam rápido, são metódicos e são levados a se encontrar por um fluxo de eventos e coincidências. Mais do que isso, são muitos personagens, sendo boa parte deles apresentada em momentos finais ou decisivos, fazendo o filme mais uma vez recorrer a flashabacks explicativos estilizados. 

Dessa forma, os maiores méritos da experiência de “Trem-Bala” acabam por serem os maiores defeitos do longa, tudo em prol de uma velocidade incessante. Talvez a grande sacada de Leitch esteja em justamente criar esse ritmo estimulante ao estruturar o filme em uma espécie de comédias de erro (lembrando até as comédias screwball, em certo sentido) e fazendo das coincidências as peças-chave para a trama correr sem realmente andar dentro de um espaço reduzido. 

Os objetos de cena e tudo que compõe aquele trem (inclusive sua geografia) viram elementos fundamentais para esses encontros e desencontros que sempre resultam em lutas, tiros, trapaças e personagens tentando se matar. Nesse sentido, o longa é bem eficiente ao dar força e motivação a esses elementos, como a cobra solta, a arma mexida ou a garrafa d’água, assim como a falta da arma do personagem de Brad Pitt que ajuda a criar sequências que recorrem aos mais variados objetos como arma (ao melhor estilo Jackie Chan), até como forma de criar um humor visual e situacional. 

Não deixa de ser interessante perceber como Leitch consegue nos prender em um caos tão restrito, em um filme que tem o desafio de construir cenas de luta interessantes dentro de um espaço tão reduzido como aqueles vagões (por isso, o longa não funciona justamente em seus momentos finais, quando expande essa ambientação para uma certa megalomania cheia de explosões e CGI). 

Porém, é difícil ignorar também como Leitch é incapaz de esconder as diversas fragilidades do roteiro com uma estética para lá de batida, que vai desde as diversas piadas para criar agilidade ou romper qualquer carga dramática das cenas, ou, principalmente, criar essas idas e vindas ou excesso de neon e cartazes para encher o longa de exposição. É quase como se o diretor acreditasse que ao exibir recursos gráficos ou piadas nós não percebêssemos os inúmeros flashbacks só para mastigar informações ou criar reviravoltas. E isso ainda piora quando esses joguinhos viram apenas piadas exibicionistas, como a jornada de uma garrafa (sim, isso mesmo que você leu). 

Assim, “Trem-Bala” acaba por ser uma montanha-russa de escolhas interessantes que dão ritmo e estilo ao filme ao se debruçar na comédia de erros e outras que soam apenas como Leitch tentando parecer espertinho e engraçadinho, mas que na verdade são, na verdade, clichês visuais e narrativos que tentam esconder as fragilidades de uma obra menos complexa do que acredita ser.