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|Crítica| 'Casa de Antiguidades' (2020) - Dir. João Paulo Miranda Maria

|Crítica| 'Casa de Antiguidades' (2020) - Dir. João Paulo Miranda Maria


Crítica por Victor Russo.

'Casa de Antiguidades' / Pandora Filmes

 

Título Original: Casa de Antiguidades (Brasil)
Ano: 2020
Diretor: João Paulo Miranda Maria
Elenco : Antônio Pitanga, Soren Hellerup, Aline Marta, Ana Flávia Cavalcanti e Sam Louwyck.
Duração: 87 min.
Nota: 3,5/5,0

 

“Casa de Antiguidades” retorna às raízes como forma de defesa desesperada contra o racismo no Brasil

Desde os primeiros minutos, o cineasta estreante em longa-metragem João Paulo Miranda Maria constrói com calma uma encenação de estranheza e hostilidade. Cristovam parece ter se fechado completamente para um mundo que vive para feri-lo. Só que essa agressividade é mostrada inicialmente com sutileza, a partir de uma língua que o protagonista não entende, em uma região que parece se apropriar do país do personagem de Antonio Pitanga.

Só que, se inicialmente a hostilidade parece disfarçada por baixo de uma falsa preocupação empresarial que no fundo é apenas exploração mesmo, aos poucos ela começa a se fazer mais evidente e sair do campo psicológico para atingir o personagem fisicamente. Não só ele, é verdade, mas tudo aquilo que ele parece se conectar, desde um cachorro com quem tem afeto até sua casa (que é um reduto histórico e pessoal do personagem) ou objetos que lembram sua origem. 

Para os moradores dessa cidade do Rio Grande do Sul, pouca diferença faz se Cristovam é de Goiás, para eles, o fato do personagem ser negro faz dele nordestino e ameaça àquela visão que remonta à eugenia nazista. Mais do que personagens, esses moradores são o mal encarnado de um racismo e de uma violência que se passa de geração para geração. 

Cabe então a Miranda Maria saber equilibrar o que é dito, o que é mostrado e o que é dominado por simbolismo. Eis então o maior mérito da direção, que vai de uma encenação mais fria inicialmente, com personagens que parecem nunca se conectar, que falam sob pausas, mas respiram hostilidade, para uma consequência mais agressiva e visual, desde pichações com o número 17, que remete diretamente à Jair Bolsonaro, até o sangue que o diretor não tem medo de fazer presente em tela. Ainda assim, o cineasta recorre muito pouco aos diálogos, faz da linguagem audiovisual e seus simbolismos a porta de entrada para sua mensagem.

Cristovam se transforma, portanto, não em mártir, mas em consequência de tanta hostilidade. O pessimismo presente desde os primeiros segundos ganha força quando o personagem é incapaz de se conectar emocionalmente até com as poucas pessoas que lhe dão alguma abertura. Até mesmo as atitudes mais reprováveis do personagem parecem ser consequência de uma constante tentativa de desumanizá-lo. É como se não houvesse saída para ele, o amor e o carinho são sentimentos que ele não é capaz de entender mais.

Assim, resta a Cristovam apenas retornar às suas raízes históricas como forma de se defender dessa hostilidade que vem de todos os lados. É uma força sobrenatural que surge como simbolismo que mantém o personagem em suas últimas forças de luta contra essa repressão.

E é nesse momento que Miranda Maria deixa de lado aquele tom melancólico mais frio e entrega a sua direção a uma certa pulsão violenta. A câmera e a decupagem se agitam, o personagem “se veste” na tentativa de resistir da última forma que lhe resta. Mas, como era anunciado desde os primeiros minutos do longa, “Casa de Antiguidades” se trata de uma luta histórica que dificilmente vai ser vencida tão cedo, nem mesmo no cinema, a arte que permite o conforto por meio de ilusões. Aqui o buraco é mais fundo e mais antigo.