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|Crítica| 'Memoria' (2022) - Dir. Apichatpong Weerasethakul

|Crítica| 'Memoria' (2022) - Dir. Apichatpong Weerasethakul


Crítica por Victor Russo.

'Memoria' / O2Play & MUBI Brasil

 

 
Título Original: Memoria (Colômbia)
Ano: 2022
Diretor: Apichatpong Weerasethakul
Elenco : Tilda Swinton, Agnes Brekke, Daniel Giménez e Juan Pablo Urrego.
Duração: 136 min.
Nota: 4,0/5,0
 
 

Sem abrir mão dos excessos característicos, Apichatpong os integra a uma viagem mística que une a beleza do mundo à colonização das américas e à origem do som no cinema

Contradizendo a si mesmo, Apichatpong Weerasethakul chega com “Memória” ao seu primeiro longa-metragem fora da Tailândia, ao mesmo tempo que encontra sua melhor forma ao combinar o seu cinema de excessos, que muitas vezes se usa das denominações “cinema de fluxo” ou “slow-cinema” como uma pretensão à naturalidade por meio de planos longos, com poucos movimentos e aparentemente sem uma preocupação por estilizá-los demais (aqui eu discordo de grande parte dos críticos que sempre adoraram o diretor, vejo os seus filmes como hiper estilizados, ainda que usando do minimalismo para isso), ao universo da obra.

Porém, se eu nunca comprei muito esse naturalismo fantástico durante a carreira do diretor, por enxergar ali mais um exibicionismo e composições hiper planejadas do que essa pegada mais natural que sempre foi o atrativo para o seu cinema, em “Memória”, pela primeira vez, o cineasta realmente faz de sua mise en scène (alguns diriam que da “falta dela”) um jogo realmente sensorial, justamente ao se entregar a um fascínio pelo estranho e desconhecido, não buscando respostas para toda aquela linda incerteza (a necessidade de fechar as mitologias abertas sempre me incomodaram nas obras anteriores do diretor, aqui ela nem existe).

Somos, então, cativados pela personagem de Tilda Swinton. Ou podemos dizer pela persona de Tilda Swinton. A atriz, marcada por uma carreira vivendo personagens estranhas, muitas vezes cheias de maquiagem, e de movimentos “não-naturais”, vira objeto de fascínio aqui pelo diretor e sua câmera, ao mesmo tempo que a própria personagem parece fascinada por uma busca pelo desconhecido, um som que a atrai justamente por não conseguir reconhecê-lo e sentir uma mistura de beleza e angústia ao escutá-lo.

Assim, somos levados aos tradicionais planos longos do cineasta, com poucos movimentos e cortes dentro de cada cena. Mas, diferente de outras obras, os planos aqui são composições que não buscam um naturalismo, mas, sim, uma observação dessa mulher e sua busca. Não à toa, por boa parte do longa, vemos Tilda, ou melhor, Jessica, fazendo coisas banais, falando com a irmã no hospital, jantando no restaurante, vendo ossos antigos de corpos encontrados por paleontólogos, indo na dentista ou conversando com um engenheiro de som sobre a banda dele. Mais do que isso, nem entendemos direito quem é ela, o que ela faz e quais são seus objetivos naquele país em que nem fala a língua com fluidez (barreira linguística essa que o cineasta usa muito bem na tentativa de se comunicar e ser compreendida da personagem).

É como se a câmera, ou o olhar de Apichatpong tivesse fascinado por essa mulher, desde a movimentação estranha, meio arqueada, nos longos planos gerais, até os longos closes em seu rosto de olhar indecifrável. Parece que o diretor tenta entender o que se passa dentro daquela mulher e só consegue obter algum tipo de resposta, por mais que muito mais em um campo sensorial e ainda indecifrável do que com uma concretude lógica, na sequência final do longa.

Dessa forma, em meio a essa observação, por muitas vezes mais distanciada, o longa constrói alguns momentos em que o tempo parece parar e todo o fascínio daquela personagem pelo som transpõe a tela e nos atinge. Primeiro, ao tentar identificar aquele som junto ao engenheiro de som (chamado Hernán), depois ao ver uma banda tocando e se encantar por aquele momento e, por último, na cena final, com outro personagem (também chamado Hernán, não por coincidência) em que eles se conectam por razões inexplicáveis e sentem sensações juntos, o que Apichatpong nos passa de forma quase inexplicável. Ou seja, até entendemos essa relação que o filme traça com o passado, mas o impacto da cena não está em entender necessariamente essa relação com o colonialismo na América do Sul, e, sim, em sentir essa forte ligação abstrata, mas extremamente comovente (é interessante aqui, que por se tratar de um campo sobre-humano, a língua finalmente deixa de ser uma barreira para a compreensão, ainda que sensorial, da personagem). É Apichatpong trabalhando a extensão do tempo em seus planos com um poder que nunca tinha feito anteriormente na carreira.

Então, de certa forma, o filme parece mais interessado em buscar essa beleza no sensorial por meio de recursos simples, como uma imagem aparentemente banal e sons que se modificam e nos transportam para aquele mundo, do que em realmente encontrar respostas sobre a civilização ou sobre a protagonista em si. Ela mesmo não entende direito o que sente, mas enxerga finalmente essa beleza no mundo.

Entretanto, tal fascínio pelo som e por entendê-lo me faz pensar em como o filme parece inteiramente ligado à história do cinema também (não à toa o passado é um tema recorrente na obra). Nesse sentido, Jessica vira uma espécie de canalizador dos teóricos, técnicos, diretores e cientistas do primeiro cinema, sempre buscando integrar novas técnicas à linguagem do cinema. E, assim como o som, quando integrado às telonas, parecia deslocado, como se os cineastas ainda não soubessem usá-lo para um maior impacto sensorial, replicando-o apenas em relação à imagem, a personagem tem de passar por um longo caminho até ser capaz de sentir o poder máximo daquele som (o que demorou anos no cinema após a “descoberta” dessa técnica).

"Memoria”, portanto, parece a obra mais livre para interpretações da carreira de Apichatpong, enquanto é também a mais capaz de nos tocar por sensações desconhecidas, por um fascínio inexplicável que ronda o longa desde a busca da personagem por entender o som, passando pela visão do cineasta para sua protagonista, até encontrar o poder máximo do sensorial em cenas que param o tempo para fazer de uma conexão mística o fim para aquela busca incessante.