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|Crítica| 'Diários de Otsoga' (2021) - Dir. Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro

|Crítica| 'Diários de Otsoga' (2021) - Dir. Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro


Crítica por Victor Russo.

'Diários de Otsoga' / Vitrine Filmes

 

 
Título Original: Diários de Otsoga (Portugal)
Ano: 2021
Diretores: Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro
Elenco : Crista Alfaiate, Carloto Cotta e João Nunes Monteiro.
Duração: 102 min.
Nota: 3,5/5,0

 

Realidade e ficção se misturam, enquanto o elenco se diverte atuando, em um dos melhores filmes sobre a pandemia

Um dos “movimentos” mais anunciados desde o começo de 2020 era a enxurrada de filmes sobre a pandemia que surgiriam a partir de então. Não só pelo isolamento social e as restrições para as produções, mas, principalmente, por essa necessidade do cinema de falar imediatamente sobre acontecimentos da sociedade (é só ver como a Guerra da Ucrânia já começa a aparecer nas telas e deve ter um crescimento ainda maior no próximo ano), o “filme sobre a pandemia” se fez presente em streamings e em festivais de cinema, apesar de poucos filmes realmente fazerem um uso criativo do momento e da linguagem cinematográfica para retratar tal sentimento do humano contemporâneo.

Então, a cada “Inside” que saiu, tiveram umas cinco ou seis obras como os fracos “Álbum em Família” e a série de curtas da Netflix “Feito em Casa” (que tem apenas um realmente bom, o dirigido por Paolo Sorrentino). Nesse sentido, Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro não partem necessariamente de uma ideia tão diferente, em essência é o típico filme sobre uma produção na pandemia. Entretanto, a grande sacada de “Diários de Otsoga” está na mise en scène e em como ela faz uma fusão entre realidade e ficção.

É bem verdade que provavelmente nada ali tenha acontecido realmente, tudo seja roteirizado ou ao menos interpretado. Só que é justamente essa a graça do filme, nos convencer que uma produção “forjada” na verdade era real e capaz de retratar com fidelidade uma produção bem específica de seu tempo, em um sítio isolado no mediterrâneo, durante um verão e cheia de restrições e nada para fazer fora dos momentos de gravação.

Assim, cabe ao ótimo trio principal entrar na brincadeira sem soar como uma farsa. O mesmo vale para a dupla de cineastas, que encara com naturalidade alguns estereótipos de diretores em um set de filmagem. Só que o que diferencia essa obra da maioria das semelhantes é justamente essa sutileza entre real e imaginário, criando uma sátira que não se anuncia como tal.

Com isso, o cômico ou a aproximação do público com os personagens surgem de momentos que provavelmente já aconteceram de forma parecida na carreira daqueles profissionais, como o constrangimento em uma cena de beijo que demora a acontecer por barulhos externos ou um brinco que o protagonista não tirou, e vai aumentando o desconforto de um simples take que deveria ser rápido e fácil de fazer.

Assim, “Diários de Otsoga” atinge um lugar peculiar. Cria um retrato bastante realista de uma produção na pandemia justamente por não trazer nada de real. É uma encenação que acha o poder na contradição e na liberdade dada aos seus atores, que podem brincar de atuar e, graças a isso, encontram uma naturalidade sutil que nenhuma obra mais documental sobre a pandemia foi capaz de trazer (pelo menos nenhuma das que eu assisti). A juventude do cinema português respira com esse talentoso trio.