Português Italian English Spanish

|Crítica| 'Crimes of the Future' (2022) - Dir. David Cronenberg

|Crítica| 'Crimes of the Future' (2022) - Dir. David Cronenberg


Crítica por Victor Russo.

'Crimes of the Future' / MUBI Brasil

 

 
Título Original: Crimes of the Future (EUA)
Ano: 2022
Diretor: David Cronenberg
Elenco : Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart, Scott Speedman e Welket Bungué.
Duração: 107 min.
Nota: 4,0/5,0

 

David Cronenberg faz uma autópsia do seu cinema sem se preocupar em dar respostas

É até natural que diretores com mais de 50 anos de carreira cheguem em seus últimos filmes e pretendam revisar aquilo que fizeram anteriormente, em filmes que parecem mais voltados para si mesmos e sua própria consciência. Assim como Martin Scorsese fez em “O Irlandês”, Lars Von Trier em “A Casa Que Jack Construiu”, Clint Eastwood em “Cry Macho”, entre outros, agora é a vez do pai do body horror olhar para o seu próprio cinema.

Assim, “Crimes of the Future” traz de volta o terror corporal para a filmografia do cineasta, subgênero do horror que popularizou seu nome na cinefilia. Mas se engana quem reduz Cronenberg ao body horror. Grande parte da obra e da assinatura do diretor tem relação com subtextos sociais e políticos, muitas vezes por meio do horror corporal (“EXistenZ”, “Videodrome”, “Scanners” etc), a sátira mais explícita (“Mapa Para as Estrelas” e “Cosmópolis”), preocupações psicológicas (“Os Filhos do Medo”, “Gêmeos - Mórbida Semelhança”), além de um rompimento com a realidade, uma encenação expansiva ou exagerada e um lado sexual e de fetiches (presente em quase todos os seus filmes e mais claramente em “Crash - Estranho Prazeres”).

São todas essas características que o cineasta traz de volta em “Crimes of the Future”, e, por meio dessa encenação que une sensualidade, estranheza, fascínio, ironia e solenidade, sobretudo com as ambientações e o universo fílmico que tiram uma noção espacial e temporal do espectador, quase como se tudo acontecesse em um mundo caótico, escuro, destruído e sem vida e cores (essas surgindo apenas no sangue e nas barras de plástico, elementos fundamentais na trama), e, também com as atuações de Viggo Mortensen (com sua voz sussurrada e vestimenta que esconde seu “corpo-arte”), Léa Seydoux (que desperta um lado mais sensual no seu jeito de falar e de sugerir, fazendo da cirurgia o seu ápice sexual) e Kristen Stewart (que esconde uma voracidade, seduação e ambição em uma interpretação sem medo de exagerar, mas sem mostrar tudo).

É no estabelecimento desse mundo futurista e decaído que Cronenberg usa o futuro e o corpo para falar de questões essenciais da nossa sociedade e do seu cinema. É uma obra muito mais preocupada em se questionar, ironizar e filosofar do que em fornecer respostas ou um discurso pronto. O que faz do ser humano realmente um ser humano? Como lidar com as mudanças do cinema e do corpo? O cinema de computação gráfica, exibicionismo e sem película continua sendo cinema (pergunta essa expressa no corpo e na possibilidade de um “pós-humano”, ou seria “pós-cinema”)? Qual é a essência da arte? A arte tem uma essência ou regras que a definem? Seriam os filmes e a sociedade “de plástico” uma decadência do mercado e moral do espectador ou um futuro natural? Quem é o verdadeiro artista: a mente por trás (o diretor) ou aqueles que executam sua visão (atores, cinegrafista, montador etc)? A arte pode surgir de forma impensada ou por acaso? Isso a torna menos arte? 

Assim, Cronenberg se coloca na pele do artista (personagem de Mortensen) para fazer uma autorreflexão e uma autópsia do seu próprio cinema, usando-se desse mundo e dessa sociedade distante da nossa para aproximá-las por simbolismos. Porém, em nenhum momento o longa se torna mero metaforismo, já que o cineasta entende a necessidade das sensações como parte de sua obra. Por isso, cria imagens em movimentos simples, mas marcantes, que inicialmente escondem o objeto de interesse para criar suspense e, por fim, o mostra como choque visual (como o menino embaixo da pia, para só depois o vermos comendo o cesto). Faz da sua encenação o jogo para essa ambiguidade.

Dessa forma, se o diretor não tem resposta para as suas perguntas filosóficas, ele também não as têm para os seus personagens e seu mundo. Ou melhor, essas respostas, assim como o discurso fílmico reforçam essa ambiguidade de um cineasta que revisa sua obra cheio de incertezas. Os personagens têm motivações ambíguas, se o filme (por meio do protagonista) reprime os “radicais do plástico”, ele também faz questão de questionar um certo sentido naquela ideologia, o mesmo vai acontecer com o próprio artista ou mesmo uma ausência de final mais definitivo (uma resposta para todas as perguntas). Esse autoquestionamento que move o filme pode ser expresso quando o protagonista sugere que todo infiltrado tem que acreditar pelo menos um pouco na causa (para acreditarem nele). Cronenberg se coloca nessa posição de infiltrado de muitas ideias, que revisa sua história, mas não consegue mais definir apenas uma essência para sua arte. Não consegue nem ter certeza se o que ele fez e faz realmente é arte.

Talvez, seja justamente por isso, e na ânsia de fazer um filme mais voltado para o seu íntimo, que “Crimes of the Future”, ainda que intencionalmente, perca uma das marcas do diretor: a força dramática por meio de pequenos clímax visuais. Essa força até existe no primeiro espetáculo para a retirada de um dos órgãos do artista, cena que contém, pela encenação, toda a ambiguidade de sensualidade, perversidade, atração, fascínio e dúvida que o diretor propõe para o longa (e para sua carreira). 

Entretanto, no momento mais anunciado pela narrativa, a autópsia que revelaria tudo (mostraria a essência do diretor), não só nada é revelado como a cena é filmada de uma forma tão morna e anticlimática, o que funciona tematicamente, já que o diretor parece ainda não descobrir a sua essência, precisando fazer “uma segunda ou terceira autópsia” para isso. Mas, tira boa parte da força dramática que o longa construiu para o seu clímax.

Então, “Crimes of the Future” tem como essência uma ambiguidade que escorre pela encenação, temáticas e discursos de um mundo de forma indefinida e de temporalidade confusa, mas macabramente sedutora, assim como o seu diretor, disposto a questionar sua essência sem a pretensão de buscar uma resposta para a sua arte ou mesmo para o que acredita, colocando os personagens para verbalizarem suas dúvidas e inseguranças.