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|Crítica| 'Paris, 13° Distrito' (2022) - Dir, Jacques Audiard

|Crítica| 'Paris, 13° Distrito' (2022) - Dir, Jacques Audiard


Crítica por Victor Russo.

'Paris, 13° Distrito' / Califórnia Filmes
 
 
Título Original: Les Olympiades (França)
Ano: 2022
Diretor: Jacques Audiard
Elenco : Noémie Merlant, Makita Samba, Lucie Zhang, Jehnny Beth e Geneviève Doang.
Duração: 106 min.
Nota: 4,0/5,0

 

Jacques Audiard se apoia nos ideais libertários franceses para fazer de “Paris, 13º Distrito” um filme sem amarras formais sobre uma geração aberta à mudança e ao autodescobrimento.

Vencedor da Palma de Ouro, Audiard faz parte de uma boa geração de diretores franceses, mas é, ao mesmo tempo, um dos que menos se restringe a uma linha autoral mais definida. Do drama social dos refugiados em “Dheepan”, ao thriller “O Profeta”, passando pelo melodrama “Ferrugem e Osso”, até o faroeste “Os Irmãos Sister”, o diretor parece sempre aberto a descobrir o novo, como se buscasse encontrar o seu verdadeiro “eu cinematográfico”.

"Paris, 13º Distrito” surge então como uma forma do cineasta condensar seus sentimentos como autor da sétima arte, com um filme livre e indeciso, tanto narrativo quanto esteticamente, o que não quer dizer falta de pretensão.

Assim, o longa usa da geração millennial como fio condutor dessa indecisão, rejeitando uma narrativa que conduza os personagens e permitindo que estes trafeguem livremente por Paris e por suas vidas, tanto profissionais quanto amorosas e sexuais. Há um sentimento meio contemporâneo, mas que resgata uma certa liberdade formal muito própria da Nouvelle Vague. 

Torna-se então uma obra que não sabe o que vem a seguir, assim como seus personagens também não o sabem. O corpo e o sexo surgem como uma forma de expor essa liberdade, como um diretor aberto a mostrar tudo por meio de seus personagens e se deixar levar por eles.

A narrativa então segue essa proposta ao rejeitar uma linearidade com causa e consequência bem definidas. Saltos temporais são feitos, ignorando o que os personagens viveram nesse meio tempo e quebras de protagonismo são realizadas a fim de mudar o foco para um personagem nova no meio da trama. 

E o mesmo ocorre esteticamente. Se por um lado o preto e branco aparece só como uma forma de tornar a obra mais “sublime”, sem um propósito de necessidade, Audiard usa das diversas possibilidades da câmera e da montagem para contar uma história de forma também bastante livre. Tela dividida, música contemporânea, uso de telas e movimentos mais lentos e contemplativos, fazem de “Paris, 13ª Distrito” um emaranhado lindamente desconexo, como parece funcionar a cabeça do cineasta, disposto a experimentar à vontade, sem medo de soar pretensioso como seu protagonista.

Talvez o único pecado de Audiard seja dar espaço para um confronto geracional, entre as gerações Y e Z, como uma forma menos livre e mais calculada, em uma sequência que expõe uma série de clichês e traz personagens mais jovens apenas como um dispositivo do roteiro. É como se aqueles personagens pertencessem a outro filme, que nada tivessem a ver com o quarteto principal, este marcado por personagens menos definidos e mais abertos a conhecer e praticar o novo. Enquanto os alunos da faculdade só aparecem como o mal da nova geração encarnado em bullies com o único objetivo de ridicularizar os millennials.

Por sorte, o filme rapidamente volta aos trilhos após essa sequência e retoma sua abordagem mais lírica e, ao mesmo tempo, menos decidida que é tão gostosa de acompanhar por quase duas horas.