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|Crítica| 'Amabulância: Um Dia de Crime' (2022) - Dir. Michael Bay

|Crítica| 'Amabulância: Um Dia de Crime' (2022) - Dir. Michael Bay


Crítica por Victor Russo.

'Ambulância: Um Dia de Crime' / Universal Pictures
 
Título Original: Ambulance (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Michael Bay
Elenco (Vozes) : Jake Gyllenhaal, Yahya Abdul-Mateen II, Eiza González, Garret Dillahunt e Keir O'Donnell.
Duração: 136 min.
Nota: 2,5/5,0

 

Ainda preso nos anos 1990, Michael Bay ao menos leva o seu cinema de excessos direto à ação.

Já virou uma brincadeira recorrente entre os cinéfilos o termo “O Michael Bay vai explodir o cinema no próximo filme dele”. Mas, o que claramente é uma piada entre os que conhecem os filmes do cineasta, de certa forma retrata aquilo que suas obras têm como alma pulsante. “Explodir o cinema” pode ir além das incontáveis explosões que Bay ama, o termo faz ainda mais sentido se entendermos ele metaforicamente como “excesso”.

Isso porque é possível desgostar do cinema de Bay por diversos motivos (eu mesmo não gosto), mas uma coisa é inegável: Michael Bay é um diretor autoral. Muitas vezes, o autorismo é um termo elogioso, que confirma que tal cineasta tem uma visão própria e um estilo bem definido entre suas obras. O problema é que não são poucos os diretores que fazem de sua visão uma mera repetição de fetiches estilísticos e/ou dramáticos. É nessa categoria que se enquadra Bay.

Desde o sucesso de seu ótimo “A Rocha” (1996), filme com ritmo enérgico e imersivo, Bay parece ter estacionado no tempo e, a partir de então, só replicou aquilo que havia dado certo na obra protagonizada por Sean Connery. Os excessos viraram a alma do seu cinema nos movimentos de câmera super expressivos, nas explosões infinitas, no uso ultra dramático do lens flare (luz do sol passando pelos personagens e “entrando” na lente da câmera”), na ação extremamente picotada, nas músicas melodramáticas, patriotismo, heroísmo, câmera lenta, sexualização de personagens femininas e por aí vai.

O que parece que Bay não entendeu foram as mudanças constantes que a linguagem cinematográfica passa. Se assistimos a um filme dos anos 1960, ou mesmo 1990, e sentimos algum estranhamento, não é culpa da obra em si, mas da nossa percepção que provavelmente vai achar aquilo ultrapassado. Por isso, é sempre necessário nos colocarmos no contexto em que o longa foi feito para poder apreciá-lo em sua totalidade.

O problema é que, diferente de outros grandes cineastas que mantiveram sua visão, mas a adaptaram às mudanças constantes do cinema, Bay segue fazendo uso das mesmas escolhas estilísticas, com os mesmos propósitos há mais de 20 anos. O resultado é uma cafonice sem tamanho. O flare é um ótimo exemplo disso, foi um recurso tão utilizado nos últimos anos que hoje se tornou algo brega, chegando ao ponto de me fazer duvidar se Bay o usa tentando ressaltar o drama da cena (seu propósito real) ou parodiando aquele drama (sensação gerada).

O mesmo vale para a desorientação das cenas de ação provenientes da câmera tremida, slow-motion e os constantes cortes, que já teve algum propósito no cinema de ação hollywoodiano nos anos 2000, mas hoje soa mais como amadorismo de diretor que não sabe filmar ação.

Então, a simples repetição de Bay de todos esses artifícios em “Ambulância - Um Dia de Crime” já tornam automaticamente o longa estranho, com uma cara ultrapassada, como se a gente tivesse assistindo a um filme dos anos 1990 em pleno 2022. É um desconforto inconsciente que é pouco atrativo para o espectador, ainda mais quando o filme leva a sério o que parece paródia.

Entretanto, se Bay segue insistindo em quase todos os seus elementos de decupagem e mise en scène, há uma modificação em “Ambulância” que torna essa obra muito mais palatável do que as anteriores do cineasta: ele vai direto à ação.

Se em outros filmes como (a franquia) “Transformers”, “Esquadrão 6” ou “Sem Dor, Sem Ganho” o diretor se sentia na obrigação de criar uma mitologia para localizar aqueles personagens dramaticamente, o que tornava toda aquela hiperdramatização para personagens completamente rasos ainda mais brega, em “Ambulância” o cineasta se desinteressa por seus personagens e direciona quase tudo para as set pieces (grandes sequências de ação).

Isso fica evidente até mesmo no roteiro, que centra toda a ação em torno de uma ambulância por quase duas horas, com personagens que não tentam ser mais do que meros estereótipos (o bandido meio psicopata com um fundinho bom, o bonzinho que só está ali por falta de opção, a donzela badass e com forte senso de justiça, o agente especial sem escrúpulos, o outro agente mais consciente e justo) e com viradas que nem tentam esconder que são meras desculpas para a perseguição continuar acontecendo.

Assim, o longa se repete infinitamente, mas dá uma sensação de progressão por sempre existir um conflito novo e, principalmente, pelo controle rítmico que Bay consegue empregar, mantendo as cenas de ação quase sempre presentes, mas alterando constantemente a escala do plano ou os movimentos de câmera a fim de esconder essa mesmice. Ora a cãmera em um drone faz um mergulho para nos situar naquela ação, para depois vermos perseguições e explosões em plano geral, para posteriormente ele colar a câmera na cara dos personagens centrais em desespero em closes bem expressivos. E isso vai se alterar em questão de segundos, com uma montagem que esconde os problemas do filme ao não deixar o espectador pensar ou respirar. Em parte, funciona.

No fim das contas, acaba sendo mais um filme direcionado para quem já é fã do diretor, mas, pelo menos, Bay ainda demonstra alguma qualidade no seu cinema de excessos ao praticamente abandonar o desenvolvimento de personagens e se focar naquilo que faz melhor, manter uma ação com ritmo frenético por longos minutos. Não é bom, mas qualquer coisa perto do seu filme anterior se torna aceitável.