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|Crítica| 'Os Caras Malvados' (2022) - Dir. Pierre Perifel

|Crítica| 'Os Caras Malvados' (2022) - Dir. Pierre Perifel


Crítica por Victor Russo.

'Os Caras Malvados' / Universal Pictures
 
 
Título Original: The Bad Guys (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Pierre Perifel
Elenco (Vozes) : Sam Rockwell, Marc Maron, Craig Robinson, Anthony Ramos e Awkwafina.
Duração: 100 min.
Nota: 2,5/5,0

 

Em meio a referências e comentários sociais, “Os Caras Malvados” se perde em sua própria ambição megalomaníaca. 

 

Não é novidade animações que direcionam vilões ou anti-heróis para o protagonismo da narrativa a fim de explorar uma jornada de redenção como uma forma de mostrar a crianças e adultos que o mundo não é tão maniqueísta como muitos pensam. Vimos isso em “Megamente”, “Meu Malvado Favorito”, entre outros. Entretanto, a nova animação da Dreamworks tem total noção do terreno em que está pisando e tenta subverter o “já visto” usando outros elementos também “já vistos”, só que em um contexto diferente.

Assim, “Os Caras Malvados” não se contenta apenas em ser um filme sobre vilões que vão provar ter um coração puro, mas o faz a partir de um jogo de referências aos filmes de assalto que vão desde as apresentações dos personagens usando cartazes com os nomes e características de cada um, até a estrutura narrativa, as reviravoltas mirabolantes, a antagonista atrapalhada e furiosa e a apresentação e execução dos planos.

Ao mesmo tempo, o longa não se contenta em ficar apenas em uma camada mais superficial dessas animações de redenção, e parte de uma imaginário popular, tanto de contos, como a chapeuzinho vermelho, até fobias humanas, a fim de criar um paralelo entre a sociedade que marginaliza aquilo que teme e a ajuda a criar uma barreira à possibilidade de inclusão dessa pessoas ao convívio comum.

Só que, se não bastasse essas duas estruturas narrativas e temáticas se cruzando, o longa ainda vai explorar um romance e também demonstrar certa ousadia ao mesclar 3D ao 2D a fim de criar contrastes e uma mistura de traços visualmente interessante. Tal escolha vai funcionar bem quando envolve movimentação dos personagens, permitindo que o dinamismo da trama aconteça por meio da decupagem, sobretudo aquela que acontece dentro do mesmo plano, sem a necessidade de cortar. 

São vários planos-sequências que ajudam o filme a se mover, desde a sequência de abertura que mostra uma tranquilidade daqueles personagens para com a sua situação, até muitos momentos em que vemos os assaltos sendo executados e passeamos entre os personagens e suas ações sem a interferência dos cortes.

O problema é que a ambição de “Os Caras Malvados” que constitui as melhores escolhas do filme também é a grande responsável pelo seu fracasso. Se as escolhas visuais ajudam a dar ritmo ao filme e construir cenas de ação, elas se demonstram frágeis nos momentos mais simples, como em diálogos com um plano de fundo chapado e com carência de detalhes. Se a discussão social é interessante, ela perde força quando o longa é incapaz de estabelecer regras para aquela sociedade, e nunca sabemos se os animais e humanos convivem em harmonia, ou se é uma sociedade de humanos com aqueles poucos animais que sabemos o nome, já que todos os figurantes em cena são seres humanos.

Algo semelhante acontece com o texto, que ora é repleto de perspicácia, com piadas até bastante adultas, ora é extremamente infantil e descritivo a ponto de ficar maçante. Só que o maior tiro no pé ambicioso do longa está no que diz respeito à escala. Se a obra funciona ao abordar referências e comentários sociais mais pé no chão, no último ato ela descamba para uma megalomania que trai o próprio discurso, saindo do pequeno para uma ameaça global com controle de mentes e meteoritos mágicos, com uma forte influência da franquia 007. É quase como se o roteiro e a direção estivessem dizendo para gente “é uma animação e na animação tudo é aceitável”. Assim, o longa acaba traindo a si mesmo.