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|Crítica| 'Licorice Pizza' (2022) - Dir. Paul Thomas Anderson

|Crítica| 'Licorice Pizza' (2022) - Dir. Paul Thomas Anderson


Crítica por Victor Russo.

'Licorice Pizza' / Universal Pictures
 
Título Original: Licorice Pizza (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Paul Thomas Anderson
Elenco : Alana Haim, Cooper Hoffman, Sean Penn, Bradley Cooper, Tom Waits e Benny Safdie.
Duração: 134 min.
Nota: 4,5/5,0

 

Em seu filme de olhar mais puro, Paul Thomas Anderson cria uma década de 1970 ambígua, romantizada e, ao mesmo tempo, imperfeita.

 

Nunca foi surpresa para ninguém a paixão do PTA pela década de 70 e seus realizadores. Sobretudo Robert Altman e Martin Scorsese são nomes que em muito inspiram o diretor de grandes obras recentes, como “Trama Fantasma” e “Sangue Negro”. Desde os filmes cheios de subtramas (uma marca do Altman), como “Boogie Nights” e “Magnólia”, até um uso de cores e movimentos de câmera mais estilosos aos moldes de Scorsese, PTA desenvolveu o seu cinema resgatando muito da decadência moral e pessimismo para com a sociedade, além de uma forte assinatura, elementos que eram base da chamada Nova Hollywood.

E, em grande medida, “Licorice Pizza” vai resgatar muito do que o diretor já havia feito em “Boogie Nights”, tanto em estética quanto em uma espécie de análise dos anos 70. Só que, se o filme da década de 90 volta o seu interesse a uma realidade moralmente decadente e joga com o como essa visão se molda na sociedade dos Estados Unidos, a sua obra mais recente está muito menos interessada em uma análise da moralidade e mais preocupada em viver aquela década sob um olhar adolescente tentando se encontrar naquele mundo. É quase um “Era Uma Vez em Hollywood” versão jovens perdidos na vida.

Então, se o cineasta não perde o seu toque autoral e controla inteiramente o ritmo frenético de acontecimentos intensos, que se passam durante mais ou menos um ano da vida desses dois amigos ,e, ao mesmo tempo, os planos-sequências, figurino e iluminação super estilizadas continuam se fazendo presente, PTA apresenta o seu olhar mais ingênuo (no bom sentido) ao construir essa narrativa. O diretor se coloca ao lado de seus personagens e vive aquele mundo maluco e incerto com eles.

Ele volta a olhar para os anos 70 de forma ambígua, idealizando uma época que ama por um lado na forma como a filma com pompa e beleza, em como faz questão de reforçar todos os elementos inerentes àquela geração, como carros, roupas, estabelecimentos etc. Mas, ao mesmo tempo, mostrando as crises de uma época problemática em muitos sentidos, o que surge na forma de problemas a serem enfrentados pelos protagonistas, como a diferença de idade (com a mulher sendo mais velha) mal vista na época, a crise do petróleo, o idealismo inocente, o machismo normalizado, a homofobia como destruidora de vidas, o culto exagerado às estrelas e a hipocrisia da sociedade como um todo. Só que tudo isso simplesmente passa e afeta o casal de alguma forma, só que sem nunca o diretor se colocar na posição de julgar tudo aquilo.

É a partir dessa visão mais contraditória e plural que o cineasta consegue estabelecer o seu tom mais jovial para evolução de um romance por meio de acontecimentos banais. No fundo, “Licorice Pizza” é um hangout movie com um foco em resolver um romance complicado. Mas, ao mesmo tempo, é diferente de quase todos os filmes com essa pegada ao saber adaptar a sua visão como diretor aos personagens e à época.

Assim, a estilização do diretor se mantém, mas com outros fins. O plano-sequência, por exemplo, serve muito mais para criar o clima entre o casal de forma mais palpável do que como mero artifício estilístico. O mesmo vale para o desenvolvimento narrativo, como as coincidências (uma marca de “Mangólia”) que constroem a época com um olhar até meio divertido, rindo do caos que era os anos 70 (veja toda a sequência envolvendo o personagem do Bradley Cooper, o caminhão e a falta de combustível, uma mistura de tensão e bizarrice que nos faz rir de nervoso por longos minutos).

Marcado por um cinema até meio cínico, PTA finalmente se liberta por completo. “Licorice Pizza” é em grande medida um filme livre de pretensões, mas sem deixar de ter estilo, assim como os diversos travellings mostrando Alana Haim e Cooper Hoffman correndo pela cidade, em um mix de desespero e autodescoberta. Geralmente, quando um diretor atinge um patamar de excelência, ele tende a tornar suas obras ainda mais autoimportantes. Por isso, não deixa de ser lindo ver Paul Thomas Anderson se desapegar dessas amarras e olhar para a época que ama com paixão e provocação, sem nunca perder seus personagens imperfeitos de vista. É, sem dúvida, um dos melhores filmes de romance adolescente já feitos. Puro e Intenso. Ingênuo e caótico.