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|Crítica| 'Uncharted: Fora do Mapa' (2022) - Dir. Ruben Fleischer

|Crítica| 'Uncharted: Fora do Mapa' (2022) - Dir. Ruben Fleischer


Crítica por Victor Russo.

'Uncharted: Fora do Mapa' / Sony Pictures
 
 
Título Original: Uncharted (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Ruben Fleischer
Elenco : Tom Holland, Mark Wahlberg, Antonio Banderas, Sophia Ali e TatiGabrielle.
Duração: 116 min.
Nota: 2,5/5,0

 

Mais preocupado em estabelecer uma origem, “Uncharted - Fora do Mapa” investe na mesma fórmula de sempre a fim de atingir todos os públicos, mas ao menos a executa com decência.

 

Antes de mais nada, é necessário deixar claro a minha relação com a série de games “Uncharted”. Isso porque não acredito na utópica e limitada visão de que a crítica é algo meramente técnico e imparcial. Pelo contrário, o crítico é um espectador como qualquer outro e, por isso, vai se conectar com a obra emocionalmente de alguma forma, enquanto o seu conhecimento sobre linguagem cinematográfica servirá para embasar sua visão e seus sentimentos sobre aquilo que assistiu.

Assim, inicio dizendo que “Uncharted” é a minha série favorita de video game, daquelas que eu zerei todos os jogos diversas vezes e continuo o fazendo quase que anualmente. Tal relação é sempre uma via de mão dupla para o espectador, pois, se por um lado os mais puristas se incomodarão com as diversas alterações feitas na história e nos personagens, os capazes de enxergar a obra com certo afastamento poderão observar o filme como uma obra independente e capaz de se desenvolver por conta própria. Acredito que me incluo mais no segundo, ainda que o meu coração pertença inteiramente aos jogos.

E, nesse caso ou no de outros games parecidos, vejo uma certa necessidade das adaptações para o cinema criar um certo afastamento para com a original. Isso porque os jogos já são extremamente cinematográficos, sobretudo na forma como se desenvolvem narrativamente e simulam a câmera. Por exemplo, “Uncharted” tem como marca as cut scenes de ação em plano-sequência, que funcionam quase como um filme animado, mas ao mesmo tempo retratam de uma forma muito difícil de se realizar no cinema, por questões técnicas, de logística etc. Então, simplesmente replicar aquilo que já foi feito nos games seria uma tolice a ponto de inferiorizar os jogos de video game e, consequentemente, a animação, e superestimar o suposto realismo do live action.

Dessa forma, analisemos então a proposta desse primeiro filme da franquia naquilo que ele se propõe a ser, e, não, em comparação com o material base. Esse é o primeiro passo para entender a montanha-russa que é “Uncharted - Fora do Mapa” e como ele infelizmente se vê em muitos momentos refém de uma fórmula, ainda que consiga se resolver bem como o filme inicial de um universo maior.

Assim, o longa vai se colocar em um posto de preocupação com o comercial em duas frentes, como praticamente todas as adaptações de video game anteriormente o fizeram: agradar o fã sem esquecer o público que não conhece o original. Em parte, isso permite à obra ser independente até certo ponto, sobretudo no desenvolvimento da história, por outro, o fan service entra como uma possibilidade simplória e pouco inspirada de se criar uma narrativa.

Isso porque o longa não só tenta agradar ao fã com pequenas referências como o protagonista vestindo seu traje pela primeira vez ou uma cena visualmente semelhante aos games (como a do avião ou os navios na caverna). Ruben Fleischer (“Zumbilândia”; “Venom”) tenta simular o video game também nas sequências de ação mais grandiosas, o que é até uma ideia interessante (uma narrativa visual e rítmica videogamizada pode funcionar muito bem), mas na prática soa como incapaz de atingir aquilo que busca. Se nos games essas sequências eram resolvidas em planos longos e se usavam do espaço físico como artifício dramático, no filme elas não passam de uma sequência de cortes a fim de dar ritmo a uma cena genérica. Os poucos momentos que Fleischer consegue resolver essas cenas é quando faz uso do CGI para estender o plano, mas isso pouco ocorre.

Algo semelhante vai acontecer com o escopo da obra, já que Fleischer almeja a grandiosidade dos games como um todo, muito marcados pelos vários países que os personagens viajam, as belas paisagens (com um alto grau de exotismo) e os conflitos quase sempre do pequeno grupo principal contra um exército. E, por mais que o longa busque isso o tempo todo, ele dificilmente consegue ir além de uma praia, um museu, uma cidade europeia ou meia dúzia de capangas. É uma economia que foge da proposta do diretor, que é colocar helicópteros carregando navios no céu em perseguição aérea de proporções épicas ou personagens voando e lutando sem paraquédas.

Tudo bem que, em grande parte, isso é resultado do tempo gasto para a criação de vínculos entre os personagens, sobretudo entre Nathan Drake (Tom Holland) e Victor Sullivan (Mark Wahlberg), que não são tão parecidos com os jogos, mas funcionam dentro da proposta do longa, ainda mais quando entendemos que essa é a primeira caça ao tesouro deles. Com isso, falta tempo para um desenvolvimento maior da ação e das ambientações, deixando um gosto de quero mais para o próximo longa da franquia (que virá se esse fizer dinheiro e deve adaptar o primeiro game, enquanto esse mescla um pouco do terceiro com um tanto do quarto).

E é talvez nesses momentos menos pensado para os fãs dos jogos que o longa passa a funcionar melhor. Isso porque, Fleischer tem plena consciência do tipo de filme que está fazendo e o quanto “Indiana Jones” é tratado como a obra definitiva desse subgênero da aventura nos cinemas. Com isso, ele faz uso de uma proposital cafonice dramática e cômica, quase como se situasse o filme em uma outra era para posteriormente nos puxar de volta com elementos mais atuais, como a tecnologia e as músicas. E o que inicialmente parece estranho, aos poucos se torna uma gota de identidade em um filme que teria tudo para ser apenas mais uma adaptação blockbuster de video game.

Então, “Uncharted - Fora do Mapa” entende o seu lugar em uma possível franquia e sacrifica muito de sua narrativa em prol de estabelecer o universo para filmes seguintes. Pode ser frustrante em muitos momentos, mas é possível que olhemos com outros olhos para esse longa no futuro. No fim do dia, não dá para negar que é pelo menos divertido e desperta uma gota de otimismo aos fãs de video games.