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|Crítica| 'Moonfall - Ameaça Lunar' (2022) - Dir. Roland Emmerich

|Crítica| 'Moonfall - Ameaça Lunar' (2022) - Dir. Roland Emmerich


Crítica por Victor Russo

 

 

Título Original: Moonfall (EUA)
Ano: 2022
Diretor: Roland Emmerich
Elenco : Halle Berry, Patrick Wilson, John Bradley, Michael Peña e Charlie Plummer.
Duração: 130 min.
Nota: 1,0/5,0

 

Roland Emmerich confunde autoria com parar no tempo, em um filme que até funcionaria na década de 90, mas em 2022 é uma aberração.

 
Há alguns anos, boa parte dos diretores mais autorais de Hollywood criticam o modelo de mercado atual, sobretudo filmes de super-herói (a Marvel é o principal alvo) e blockbusters de forma geral. Essa crítica não só é válida, como extremamente necessária, em uma indústria que se apoia cada vez mais apenas em franquias e sequências de alto orçamento (ou filmes de terror de baixo orçamento com alta margem de lucro), o que vem matando os média-metragens e produções originais e autorais.
Só que todo movimento, por mais legítimo e necessário que seja, sempre terá aqueles que surfam uma onda que não lhes pertence. Esse é o caso de Roland Emmerich, um crítico da falta de originalidade de Hollywood e do monopólio dos filmes da Marvel, DC e de Star Wars. O que certamente não seria um problema caso esse não fosse um cineasta que em nada é original e só entrega aos estúdios aquilo que eles desejam.
 
Depois de despontar na década de 90 com a invasão alienígena “Independence Day”, o cineasta moldou uma carreira de filmes de alto orçamento, sempre envolvendo catástrofe, muito patriotismo ou, na maioria das vezes, os dois. Vimos, então, graças a ele, desastres
(desculpe pelo duplo sentido da palavra) como “2012”, “Midway”, “O Dia Depois de Amanhã”, “Independence Day: O Ressurgimento”, “O Ataque”, entre outros.
Eis que chegamos então ao seu novo filme e, provavelmente, o pior de sua fraca carreira: “Moonfall: Ameaça Lunar”. Um longa que recicla tudo aquilo que o diretor fez dentro do subgênero de catástrofe, mas não percebe a evolução do cinema e as mudanças sociais,
tornando um filme que poderia ser agradável nos anos 90 em um crime cinematográfico em 2022.
 
Comecemos então pelo lado cinematográfico e deixemos para depois o discurso do longa. Os filmes de catástrofe existem há muito tempo e tiveram seu boom de produções entre a segunda metade da década de 90 e começo dos anos 2000 (ainda que a grande maioria dessas produções já era bastante sofrível). Entretanto, o subgênero começou a se tornar repetitivo e previsível e foi perdendo força, até se tornar quase extinto. Dessa forma, para resgatá-lo seria necessário ter uma autoconsciência muito grande do terreno em que tá pisando, algo semelhante ao que acontece hoje em dia com o faroeste, em que pouco se é produzido, mas diversos cineastas souberam renovar ou confrontar o gênero de alguma forma, em obras como “Ataque dos Cães”, “Bravura Indômita”, “Vingança e Castigo”, “Django Livre”, entre muitos outros.
Emmerich não tem esse tato cinematográfico e faz de “Moonfall” um filme que já nasce ultrapassado por simplesmente não entender que muitos elementos comuns nos anos 90 se tornaram ultrapassados ou bregas hoje em dia. Não que o cinema de hoje seja melhor do que o daquela época, apenas a linguagem cinematográfica está em constante mudança e ao revisitarmos longas de anos anteriores, seja da década de 1920 ou de 1990, entendemos automaticamente em qual contexto aquela obra está inserida para poder apreciá-la.
 
Assim, Emmerich, ao se manter fiel ao que sempre fez, não sabe rir de si mesmo, em um filme que beira a autoparódia não intencional. Somos obrigados a ver frases de efeito, discursos bregas, personagens unidimensionais se esforçando para parecerem complexos, dois núcleos em paralelo, um no espaço e outro completamente desnecessário na terra, uma grandiloquência que não é acompanhada pelos (d)efeitos visuais e, claro, muita teoria da conspiração (retornarei a esse tema em seguida) e patriotismo seletivo. O problema é que, todos esses elementos batidos poderiam servir facilmente como um humor que parodia os filmes de catástrofe, mas o cineasta os leva excessivamente a sério a ponto de dar enjoo.
Porém, ainda que seja extremamente indigesta a falta de maleabilidade do diretor para trabalhar o tipo de obra que fez a carreira inteira, nada se compara aos problemas de discurso presentes no longa, sobretudo o que envolve teorias da conspiração. Apesar de nunca terem sido algo positivo para a nossa sociedade, era possível aceitar na década de 90 um escapismo envolvendo invasão alienígena, conspirações secretas do
governo e afins. A questão é que em 2022 as teorias da conspiração não são mais uma coisa para se dar risada, elas se tornaram um dos grandes males da nossa sociedade. Hoje em dia, não é mais apenas uma pequena parcela de lunáticos que acredita em terra plana, globalismo, 11 famílias que controlam o mundo, chip em vacina, que o homem nunca pisou na lua etc. Essas pessoas se tornaram numerosas a ponto de influenciar eleições em grandes nações, como Brasil e Estados Unidos. Não entender o contexto em que o filme está sendo feito e as mensagens passadas por meio dele é um erro de principiante. E Emmerich definitivamente não entende (ou entende e acredita nessas maluquices, o que seria mais bizarro). Com isso, aquele personagem que deveria ser o doido e que comanda uma turma que parece saída do QAnon, torna-se rapidamente a voz da razão, o herói e único capaz de enxergar a verdade que “a mídia e o governo escondeu”. O filme exalta o personagem e suas teorias da conspiração a ponto de guardar um interminável terceiro ato só para reforçar a mensagem do personagem e seu heroísmo, terço final este que junta algumas das piores ideias recentes que eu vi no cinema e que poderiam ser facilmente ironizadas na mão de um diretor mais consciente.
Então, ao não compreender a evolução do cinema e da sociedade, Emmerich faz de “Moonfall” não só um longa cinematograficamente ultrapassado, mas de discurso extremamente perigoso, ainda mais quando entendemos que o longa é voltado para o país com mais adeptos a teorias da conspiração absurdas: os Estados Unidos.